Ontem, hoje e amanhã!

Retratos do dia a dia!

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Cansei

A vida supera-me, surge em surpresas, dia após dia, ultrapassa todos os meus sentires, e eu, não aguento mais. Estou cansada e farta de ser boazinha. Não mereço o modo como sou tratada depois de fazer de tudo para que te sintas bem e consigas, tu própria, ultrapassar os desaires que a vida te dá, na maioria deles, por tua própria culpa. Pensas talvez, que sou da tua idade, com saúde e força para tudo, mas não, estou cansada a todos os níveis, de saúde e psicologicamente. A minha vida nestes últimos tempos não tem sido nada fácil. Sim, não é fácil viver o dia-a-dia estando ao lado da pessoa que amamos e nos acompanha há mais de quarenta e cinco anos, e vê-la aos poucos a definhar, e de seguida, saber que essa mesma pessoa tem um cancro maligno, e ainda por cima, o mais perigoso de todos. Não é fácil! Não é fácil viver e fingir para que tudo corre como se nada fosse, sempre na espectativa da próxima consulta para saber a opinião da médica. Para quem tem tendência a depressões não é nada fácil. Tudo se desmorona, a cabeça não para em filmes de terror, as noites são mal dormidas, os dias passados como se tudo fosse alegria e felicidade. A vida quase parece um teatro real, onde os protagonistas, sou eu e o mau marido. É isso! E tu no meio disto tudo o que sentes? Sabes que tens um pai canceroso, vais perguntando como ele está, como passou o tratamento, como…., como…, mas não assistes a nada. Não o vês quase sem andar, sem comer e sem falar. Não o vês nos dias horríveis passados no hospital, quando vem de um exame mais complicado, ou quando quer comer e tem de o receber dado por outra pessoa, que fui sempre eu a fazê-lo, nunca falhei um dia que fosse. Nem o ajudaste em tudo quando regressou a casa, sem conseguir tomar banho sozinho, ou comer e beber sozinho. Não lhe deste banho, nem lhe deste água à boca. Não trataste a cicatriz da operação. Não o ajudaste a arranjar melhor posição para conseguir dormir. Não pegaste no bacio enquanto ele urinava de noite. Não lhe mudaste o pijama quando o bacio se voltava e a urina o molhava. Não passaste noites inteiras sem descansar um segundo. Nem limpaste a banheira, depois de ele ter uma diarreia em que sem querer as fezes saiam sem controlo. Não lhe aparaste as lágrimas quando em desespero soltava a tristeza sentida dentro de si há muito. Não o abraçaste e beijaste para lhe dar segurança e apoio. Algumas vezes te enviei SMS para lhe ligares, pois eu sabia que o teu pai precisava também de ti, de sentir que estavas “lá” connosco. Também não és tu que estás dias inteiros quando ele vai fazer as sessões de quimioterapia, e assistes à dor e sofrimento das pessoas ao redor. Nem tiveste com ele das duas outras vezes em que esteve internado, e na sala aonde estava, só se via gente em estado vegetativo. São situações que jamais esquecerei. Não me arrependo de nada que fiz, tudo faria e farei para que o meu marido se sinta o melhor possível, já lhe basta a doença que resolveu ataca-lo sem dó nem piedade, e sem avisar. Também não te critico pelo que és, és assim e pronto, desde que te sintas bem contigo. Não podes exigir de nós aquilo que já não podemos fazer. Não podes afirmar aquilo que não vês. Como podes dizer que os meninos passam o dia sozinhos, só porque quando chegaste eles estavam no quintal a brincar sozinhos, sim, mas eu estava na janela a ver o que se passava?! Todos os dias ralhas porque eles andam na tua casa e fazem distúrbios, nem eu nem o teu pai podemos passar o dia a subir e a descer as escadas para vermos o que eles estão a fazer. Para ti, os meninos estariam sempre dentro de casa, esqueces-te que com a idade deles, não brincavas no quintal, não, brincavas na rua com as amigas e os amigos da tua idade. Pois é, eles precisam dessa pequena “liberdade”. Também não tem sido fácil passar de uma vida sem dificuldades monetárias, para a que temos hoje, em que tenho de contar os dias que faltam para voltar a receber as nossas miseras reformas, e fazer contas ao pouco dinheiro que tenho. Depois, saber que não posso pagar tudo, algo terá que ficar para o mês seguinte. Nunca nos tínhamos visto numa situação assim. É muito complicado para quem teve sempre as suas contas em dia. Não é fácil saber que o pai quer ir a Fátima e também à Vidigueira, e não ter dinheiro para o gasóleo. Os meses passam e tudo continua igual. Não sei se aguentarei muito mais. Tenho momentos em que só me apetece fugir. Apetece-me morrer, matar-me. Já o disse antes, mas nunca o senti como agora. Há poucos dias, quase o fiz. Descontrolei-me completamente, foi horrível o que senti e vivi naquele momento. Algo ou alguém me salvou de o fazer. O pai não merece. O pai não pode viver sem mim, eu sei. Sei que não poderei fazer, pois embora digam que não há insubstituíveis, sei que para o teu pai, não há ninguém que me substitua. Só eu o compreendo e apoio. Só eu o acarinho e amo de verdade. Pensa um pouco na nossa idade e nos últimos momentos da nossa vida, e não te revoltes contra nós, revolta-te contra a vida, a tua, a nossa, dos teus pais. Ambos estamos extenuados, revoltados, sem forças e sem paciência. Deixa-nos viver o tempo que nos resta com paz e estabilidade emocional. Não, não me estou a fazer de vítima, como costumas apelidar-me, hoje considero-me uma heroína, com força para lutar e vencer esta luta que ambos travamos, e juntos venceremos. Seremos os heróis nesta batalha que a vida nos deu. Deus pôs-nos à prova, mas nós não baixamos os braços, fomos à luta sempre unidos, e unidos seremos os heróis. sei que não fui a filha ideal, mas sempre dei apoio à tua avó em tudo o que ela precisou. Maria Antonieta Oliveira 26-08-2015