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sábado, 22 de abril de 2017

Com ou Sem Mãe 2

Foi mais ou menos nessa altura que nos começamos a dar com outros casais, todos sem filhos e alguns ainda solteiros. Juntávamo-nos aos sábados ao final do dia e por vezes só regressávamos a casa na madrugada do dia seguinte. Íamos para casa uns dos outros e aí ficávamos a contar anedotas, a jogar o monopólio, a jogar às cartas, bebendo e petiscando na maioria das vezes punhetas de bacalhau. A Carla acompanhava-nos na maioria das vezes, adormecendo na cama do casal aonde estávamos ou ao meu colo, ficando assim o serão inteiro. Mas era bom, eram pessoas com quem se podia conversar e com quem até se podia aprender alguma coisa. Depois uns foram pais, outros foram viver para as respectivas terras e tudo acabou. Deu-se o 25 de Abril de 1974 e de seguida e por consequência os senhorios resolveram querer vender as casas, o nosso senhorio pediu 600 contos, o senhorio dos meus pais pediu 200 contos, não hesitámos na compra, por concordância dos meus pais, pois em 1967 o meu pai tinha estado um mês a trabalhar em Paris e ganhou 30.000 escudos, uma fortuna para a altura, com esse dinheiro comprou em 1971, um terreno num local distante e praticamente deserto, em Casal de Cambra, e há muito falavam em construir lá uma casa. Começaram então a construção com ajuda de amigos do meu pai, e também com a ajuda do patrão que lhe cedeu alguns materiais gratuitamente. Nós voltámos para a rua de Gôa, pois era incomportável pagar a renda da casa e o empréstimo feito à caixa geral de depósito, única entidade bancária que na altura concedia empréstimos sobre imóveis. O ambiente entre todos era um pouco pesado, a minha mãe já não se sentia bem naquela casa, por sua vez, eu, também não me sentia bem, parecia que a casa não era de ninguém mas que todos lá tínhamos de viver. Em 1976 já não sei bem em que mês, cada um passou a viver na sua casa. Fizemos um quarto para a Carla e a partir daí começou a dormir no seu quartinho. O pior, eram as manhãs e depois as noites quando íamos levar e buscar a Carla à avó Chica, em que o choro era constante pois queria-nos todos juntos como antes. Ela sofria, eu sofria e a avó sofria. Uma tarde de sábado eu e o Victor falamos na hipótese de fazermos um primeiro andar na casa dos meus pais e assim resolveríamos a situação de todos. Mas para isso tínhamos que falar com eles, e consoante o que dissessem assim faríamos. No domingo a seguir fomos lá almoçar e falei sobre o assunto, o meu de imediato disse que sim, a minha mãe calou, ela sabia, depois acabou por concordar, na condição de que o meu tio João continuaria a dormir lá em cima, o meu pai tinha feito um quarto para ele no sótão. Claro que concordei, sempre gostei muito desse meu tio. A obra começou, também os amigos do Victor o ajudaram, e ele depois do trabalho na oficina vinha para aqui fazer tudo o que era possível fazer. Em pouco mais de seis meses a casa estava pronta, ampliamos com a feitura da garagem e sobrepondo-lhe a cozinha. Mudamo-nos no primeiro dia de Julho de 1978. Entretanto a casa da rua de Gôa foi vendida ao cunhado do senhor Silvestre, o merceeiro de há muitos anos, pagamos a dívida à CGD e o restante ajudou na construção desta casa. O Victor pediu algum dinheiro em nome da oficina, pois os juros eram mais baixos e deu para tudo. Esse valor foi pago pela oficina. A parte emocional de todos nós parecia ter voltado ao normal. No dia do quinto aniversário da Carla estiveram presentes os amigos do Victor que ajudaram e como de costume a família e alguns amigos nossos, para além das amiguinhas da Carla que lancharam juntas. Foi uma inauguração muito boa, um dia alegre e com boa disposição entre todos. Pusemos a Carla na pré-primária no colégio Grão Vasco, a ideia foi minha, queria que ela começasse a ter contacto com outras crianças para além das poucas aqui da rua, para além de querer dar um pouco mais de descanso à minha mãe. Ela detestou a ideia, ainda hoje me recrimina por o ter feito. Andou lá até à quarta classe, passando depois para a escola preparatória da quinta dos Castanheiros em Caneças. Sempre que o horário dava íamos levá-la antes de seguirmos para o trabalho, quando não ia de camioneta, tal como vinha. Os serões na oficina voltaram, por vezes até bastante tarde, eu esperava em vez de agarrar no carro e vir embora. Ele dizia-me para o fazer, mas eu sabia que o serão seria mais longo, pois entretanto os “amigos” iriam aparecer para os copos. E eu sabia bem como era a condução dele, e também o mau feitio com que ficava nessas ocasiões. Preferia sacrificar-me pela saúde dele e também pela boa harmonia. Porquê? Não sei! De novo a pena, a protecção, como se fosse mãe dele ou irmã mais velha. Talvez! Entretanto em 1980 comprámos um terreno na charneca da Caparica. Começamos por fazer uma garagem, a seguir uma casa de banho e uma pequena cozinha, aos poucos foi surgindo uma casa de primeiro andar. O dinheiro ia surgindo de trocas de carros comprados com empréstimo e depois vendidos a pronto, para além de outros empréstimos feitos em novo da oficina, com o trabalho do Victor tudo foi pago. Mas, quem pagava tudo o resto, alimentação, água, luz, gás, escola da Carla, roupa e calçado para todos, era eu com o meu ordenado. Os fins-de-semana sempre passados lá com homens a trabalhar e a beber, foram fazendo vir ao de cima os meus problemas nervosos, começados quando ainda vivia na casa da minha madrinha, em que um dia desmaiei, e ela me levou ao médico dela, que tinha o consultório no canto direito da igreja da Madalena, e já não recordo o que me fez mas chegou à conclusão que eu tinha o sistema nervoso muito frágil. As depressões começaram e o meu mau feitio surgiu, passando a não poder ver quase ninguém. A minha mãe foi uma das minhas vítimas, mal ela subia as escadas já eu estava de trombas. Também era um pouco culpada do meu mal estar, pois era raro odia em que mal eu entrava em casa ela não me fizesse queixas da neta, sobre coisas que só ela no momento em que aconteciam o podia resolver. Era difícil. Muito difícil. Depois da casa pronta, passou a ser estalagem para todos, aos fins-de-semana toda a gente, família e sem ser, apareciam lá para comer e beber à borla, excepto a minha prima Liete e o marido que sempre pagaram o que comeram. Com esses passei férias felizes, dávamo-nos muito bem, passeámos por Portugal de norte a sul e sempre correu tudo bem. Saudades deles, meu Deus. Voltando aos outros, havia um casal que se dava ao luxo de telefonar para lá, pois eu mandei lá pôr um telefone para poder telefonar à minha mãe todos os dias, como sempre fiz até ao último dia do meu pai com vida, que partiu sete anos depois dela. Então telefonavam e diziam “ amanhã, comprem sardinhas a contar connosco, que nós vamos à praia e depois vamos almoçar aí”. Outro levava a família quase toda e pagava com um doce ou um bolo para a sobremesa. E no fim íamos todos ao café da dona Beatriz, e quem pagava os cafés e os extras era o Victor. Enfim. Entretanto a Carla casara em 1991, a partir daí também os amigos dela e dele e respectivos namorados passaram a ir para lá, até aí tudo bem, o pior foi quando descobrimos que o meu genro, tinha emprestado as chaves que a Carla tinha, a um amigo que fez cópias e durante a semana a casa passou a ser uma casa de encontros amorosos. Foi a minha mãe que nos alertou, dizendo que aqui já se falava que a minha casa era uma casa de putas, não me disse quem lhe falara no assunto, mas só podia ter sido a mãe de uma miúda aqui da rua que também ia para lá. Fui eu quem falou com eles, filha e genro, desmentiram, e tudo ficou assim. Passei a ter nojo da casa, não sabia quem lá tinha andado e onde tinha mexido. Cheguei a um ponto que já não aguentei mais. As discussões eram constantes, no entanto para todos, nós eramos um casal feliz. Ele também se cansou de tudo isto e um dia no café disse que se encontrasse quem quisesse comprar a casa a vendia de imediato, mal o disse e já havia um comprador, o cunhado do vizinho do lado, e assim no final de 1999 a casa foi considerada vendida embora só se fizesse a escritura já em 2000. Maria Antonieta Bastos Alentado 22-04-2017

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