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quarta-feira, 19 de abril de 2017

Eu Com e Sem a Minha Mãe

EU COM E SEM A MINHA MÃE Estava casada sim, e estava libertada?! Não! Falei que queria tirar o curso de contabilista e iria fazê-lo à noite, para não prejudicar o emprego, disse-me logo que não acava necessário, pois eu até ganhava bem, e que desistisse da ideia. Mais uma vez fracassei e não lutei. Já o tinha feito anteriormente pelo mesmo motivo, com a minha mãe. Nas vésperas de casarmos ele deu-me 8000$00 para guardar, era o dinheiro que tinha, assim fiz. O meu ordenado também passou a ser orientado por mim, pagando metade da renda da casa, metade da água, metade da luz e do gás, metade da taxa da tv, metade do telefone e também metade da alimentação, portanto metade de tudo, imposição da minha mãe e com a qual concordei, ela não tinha obrigação de me continuar a sustentar se já não recebia o meu ordenado. Ele estava no Entroncamento, a tirar a especialidade, vinha ao fim-de-semana a casa e levava comer feito para a semana toda, a meio da semana escrevíamos uma carta um ao outro, a confiança que eu tinha na minha mãe era tanta, que criamos códigos para que mesmo que ela abrisse as cartas não percebesse a conversa. Aos fins-de-semana sempre que tinha trabalho, fazia-o e assim ia tendo dinheiro para os extras na tropa. Veio depois para Campolide onde ficou o restante tempo perfazendo trinta e seis meses de tropa. Como era casado vinha dormir a casa todos os dias, também como casado tinha direito a uma determinada verba, mas como dava trabalho ia tratar disso, não tratou e nada recebeu. Também aí levava todos os dias o almoço de casa, soube há bem pouco tempo que normalmente o dava a outros e ele ia comer num restaurante perto do quartel. Ele trabalhava ao fim-de-semana e eu continuava a arcar com todas as despesas. Por graça ia juntando os míseros escudos que ele como soldado raso ia ganhando, até já ter uma verba mais ou menos jeitosa que serviu para ele tirar a carta de condução, e aí, os 8000$00 que me tinha dado a guardar, foi para a entrada do primeiro carro que tivemos, um Ford 12 M , que tinha sido do senhor António, o dono do pequeno lugar em Benfica onde o meu pai parava, ficamos a dever 7000$00, começou a nossa guerra e as nossas dívidas por causa dos carros. No quartel as tardes eram passadas no jogo e na bebida, pelo que muitos dias chegou bêbado a casa. Numa brincadeira no quartel partiu a rotula direita, esteve um mês engessado e supostamente internado no hospital militar na rua da Artilharia 1, mas como um dos porteiros era da Damaia e já se conheciam, a troco de vinho, todos os dias saia e ia dormir a casa. No outro dia lá ia de novo de táxi, para estar no quartel à hora da revista. Houve uma noite em que nunca mais chegava a casa, eu já pensava que ele tinha tido um acidente com o carro, até que apareceu com o tal de Marinho, o porteiro do hospital, não sei qual dos dois estava mais bêbado, riam e falavam alto, e a hora já era bem tardia, a minha mãe claro está, que já estava há muito tempo deitada, ele começou a desconversar, como sempre fazia quando não estava sóbrio, começou a dizer que a minha mãe tinha vergonha dele e abriu a janela dizendo que ia atirar tudo pela janela, assustada fui pedir à minha mãe que se levantasse e fingisse vir da casa de banho e os fosse cumprimentar, ela coitada, assim fez e ele acalmou. Ao fim de um tempo o outro foi-se embora e consegui convence-lo a ir-se deitar. Hoje penso porque consenti que isto acontecesse, do que tinha medo? Mas tinha, tinha medo que ele se tornasse agressivo. No outro dia já tudo tinha passado, até uma próxima. Foi assim todo o tempo em que esteve na tropa. Entretanto ele já tinha uma outra oficina e um sócio, que era trabalhador no hospital de Santa Maria, continuava sem me dar dinheiro, pois tinha começado tudo de novo e a oficina não tinha dinheiro. Entretanto engravidei, de comum acordo, já íamos fazer quatro anos de casados e ele já tinha saído da tropa. Quando fui saber o resultado da análise que confirmou a gravidez, foia a minha mãe comigo, ao dizer-lhe que ia ser avó, respondeu-me com um ar sério – não sei se fico alegre ou triste. Nada mais disse. Fui a todas as consultas quase sempre com a minha mãe, ele tinha que trabalhar, não tinha tempo, até aquele sábado de Agosto em que durante a noite me levantei várias vezes com dores, mas como as águas não tinham rebentado, pensava não ser ainda, pelas contas da médica ainda faltava uma semana. Ele ia trabalhar mas como as dores apertavam pedi-lhe para me levar à ginecologista que em assistia, na caixa, era assim que se dizia na altura, que ao me ver de imediato disse para irmos depressa pois já tinha a dilatação quase toda feita. Fomos, eu, ele e a minha mãe. Pouco tempo depois de chegarmos à associação no largo do Caldas, a Carla nasceu, mas já aí me fez sofrer, pois tiveram que voltar a meter a cabeça para dentro, que ela vinha torcida. Estive cinco dias internada, e todos os dias tive a visita da minha mãe que me levava o almoço, e dele que me levava o jantar e ficava a dormir. Foi um ano em que o mês de Agosto foi abrasador e não havia ar condicionado, mas passou-se. Foi-me dito que deveria sair na quinta-feira, a minha mãe como de costume lá estava à hora de almoço, e foi-me dada alta, telefonei-lhe para nos ir buscar, mas não foi, não pode, tinha muito trabalho. Eu fui para uma esquina com a Carla ao colo, a minha mãe foi para outra com o saco da menina e o outro saco com as minhas coisas, para ver qual de nós arranjava primeiro um táxi que nos levasse à Damaia. Já não me recordo bem, mas penso que fui quem o arranjou primeiro, mas isso foi secundário, felizmente chegámos a casa. A minha mãe deu-me todo o apoio logístico necessário, ajudando-me nos biberons, nas fraldas, depois nas papas, nas sopas, e por aí fora, pois após dois meses acabou a baixa de parto e fui trabalhar. Só num ponto nunca me ajudou e avisou logo no primeiro dia, nunca deu banho à neta. Quando eu chegava a casa até me dava prazer fazê-lo. Foi nessa altura que compramos uma máquina de lavar roupa, pois ainda não se usavam as fraldas descartáveis, pagamos a meias, eu e a minha mãe, mas com a condição de que quando saíssemos dali a máquina ficava. Tal já tinha acontecido quando no princípio de casados compramos o esquentador. E assim foi. Começamos nessa altura à procura de casa, ainda pensamos em comprar, mas ficávamos com uma renda incomportável, pelo que decidimos mesmo alugar. Encontramos um rés-do-chão optimo na Damaia de Cima, a renda era 3200$00, era eu quem a pagava, para além de continuar as despesas que a minha mãe fizesse com a alimentação da neta, ou quando nós lá jantávamos. Mais uma etapa. Fui mãe. Maria Antonieta Bastos Alentado 19-04-2017

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