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quarta-feira, 19 de abril de 2017

Eu e a Minha Mãe 2

As férias grandes eram um suplicio, tantos dias fechada em casa vendo apenas, para além da minha mãe, e do meu pai que invariavelmente estava bêbado, embora não fosse agressivo, pois até lhe dava para brincar, rir e dormir, mas também não dava para conversar, como dizia, apenas via quem passava na rua, da única janela a que tinha acesso, a do quarto da minha mãe, pois a outra que dava para a rua era a do quarto da senhora Maria. Entretanto o meu primo Jorge foi para a tropa e a minha mãe mudou o seu quarto para onde era a sala e vice-versa, passando eu a dormir no divã onde antes o meu primo dormia. Foi a primeira vez que não dormi no quarto dos meus pais. Mas tinha medo, sentia o medo que outrora tinha sentido quando à noite atravessava o corredor na casa da madrinha, entre a cozinha e a sala dela. Aí passei bons momentos à janela com ela, a ver as marchas, as procissões e até as noivas de Santo António, pois as janelas davam par o largo de Santo António onde fica a respectiva igreja. Também ouvíamos os passarinhos a regressar às árvores, ao anoitecer. E víamos as varinas regressando da venda com a canastra à cabeça, gritando o pregão para venderem o que restava. E o homem dos caracóis, ou o aguadeiro a vender as bilhas de água das fontes de Caneças. E a mulher da fava-rica ou o amolador, tudo dava para desanuviar e ajudar a passar o tempo. Voltando às férias grandes, a Querida, assim chamei a mãe da minha madrinha até ao seu último dia na terra, um ou dois anos, deu-me um lençol branco para bordar a ponto de cruz ou a ponto corrido, mas o pior é que eu não tinha jeito para bordar, o que tornava complicado ter que cumprir esse dever, mas lá ia fazendo tentando acabar até ao final das férias. À parte isso, nada mais fazia, a minha mãe fazia tudo, com ela nada aprendi, nem sequer a cozer umas batatas ou estrelar um ovo. Passava os dias da cozinha para a janela e da janela para a cozinha, a minha mãe chateava-se e dizia que eu parecia um passarão desconado, não gostava que ela me chamasse assim, mas não reagia, pois se o fizesse arranjava mais uma tareia, e já bastavam as que levava porque fazia e porque não fazia, tudo era motivo para me bater. Também às vezes quando estava mesmo muito zangada dizia que quando eu nasci devia ter nascido um saco de lacraus, ficava triste ao ouvir isto, mas calava. Por outro lado em menina, dava-me beijinhos e carinho e chamava-me de “minha menina de prata e ouro”, ao fim e ao cabo a minha mãe também era uma vítima da vida que tinha levado, pois ficou sem pai apenas com nove meses de idade, teve que crescer antes do tempo. Mas eu não tinha culpa. O meu namoro com o tal miúdo de olhos bonitos, continuou contra a vontade da minha mãe e, pensava eu, sem que ela soubesse. Quando acabaram as férias liguei para ele, que era trabalhador estudante, dizendo-lhe o meu horário escolar para que ele pudesse aparecer e nos voltássemos a ver. Assim aconteceu e aos sábados, por vezes ele aparecia. Num sábado em que íamos apenas lado a lado, surge a minha mãe por detrás de nós, deixando-me em pânico, mas vá lá desta vez não me bateu, apenas falou com ele dizendo que não queria que ele voltasse ali pois não queria que eu namorasse, por ser muito nova. Este episódio ficou por aqui. Nós continuamos o que nunca acabámos. Houve mais uma ou outra vez em que até as minhas colegas me avisavam que a minha mãe estava escondida nas escadas por aonde eu passava, entre a escola e o electrico, mas nunca mais houve desacato como da primeira vez no Rossio. Numas férias grandes fomos passar uns dias a Moura, para casa do meu tio Carvoeiras, o Ângelo, assim se chama o miúdo de olhos bonitos, resolveu escrever-me uma carta, pondo o nome e toda a conversa no interior da carta, no feminino, mesmo assim a minha mãe disse logo que a carta não era de nenhuma colega Ângela mas sim dele. O meu tio mais liberal, e tinha duas filhas, não ligou nenhuma ao assunto. Em 1964 acabei o tal curso geral do comércio, fiz o último exame no dia 31 de Julho e mesmo nesse dia, o meu pai disse-me que se quisesse começar a trabalhar já tinha que ir no dia seguinte ter com um senhor para o qual ele tinha trabalhado no quintal, como calceteiro, mas se quisesse ter as férias normais e só começar a trabalhar em Outubro, era comigo. Claro que decidi começar a trabalhar de imediato, assim sendo no dia 10 de Agosto iniciei a minha vida profissional. A minha mãe e eu continuámos a não saber dialogar, nem sequer havia uma tentativa para que existisse qualquer tipo de conversa sobre que assunto fosse. A senhora Maria e família continuavam morando na nossa casa, um irmão da senhora Maria casou-se com uma miúda muito simpática, com quem me dava muito bem, havia empatia entre nós. Um dia ela emprestou-me um livro que se chama “A Higiene Intima da Mulher”, escrito pelo médico Dr. Ramiro da Fonseca, jamais me esqueci destes pormenores, o titulo só por si já diz qual o conteúdo do livro, no entanto, para a minha mãe o livro não deveria ser lido por mim, assim sendo, pegou em mim, e fomos a casa da dona do livro, aonde ela ralhou dizendo que não queria que me emprestasse mais livro nenhum que aquilo não era para a minha idade, enfim, mais uma vergonha para mim. Esta forma de agir fez-me lembrar quando eu tinha seis anos e a minha prima Rosa nasceu, irmã da Liete, e a Liete me disse que os bebés nasciam da barriga das mães. Eu que nada sabia disso, ingenuamente disse à minha mãe o que tinha aprendido, de imediato também pegou em mim e fomos da Calçada do Correio Velho à rua da Conceição, para a minha mãe dizer o que a Liete me tinha dito e avisar que não queria mais conversas destas comigo. Enfim, eu tinha seis anos, mas agora já tinha dezasseis ou dezassete, não sei precisar. O meu namoro continuava apenas pelo telefone até um dia em que ele resolveu em finalmente esperar e falar com o meu pai que depois de muitas observações, autorizou que ele entrasse em casa para namorarmos. Foi complicado, passei muitas horas, muitos dias à janela, à espera que ele chegasse e não chegava. De repente sem que eu já acreditasse que ele voltava, lá aparecia com todo o carinho e saber da vida, que eu não sabia. As lágrimas soltadas secavam e o coração voltava a acreditar. A minha mãe dizia para acabar tudo, que o mais certo era ele ter outra e andar a brincar comigo, não passava disto a nossa conversa. Por outro lado também dizia que lá na terra uma rapariga que namorasse e depois acabasse o namoro, nunca mais ninguém queria namorar com ela. Contradizia-se e confundia-me. Conheci os padrinhos que moravam em Odivelas, adorei-os, muito simpáticos. Claro que a minha mãe foi connosco. Conheci a mãe, também muito simpática, foi mais do que uma vez a casa dos meus pais, no meu aniversário. Conheci… conheci… mas as ausências prolongadas continuavam, e o sal escorria pelas minhas faces. Apoio não tinha nenhum, nem sequer tinha com quem falar, para além da Liete que namorava o Jorge e tudo corria bem com eles. Sentia-me sozinha e sem saber o que fazer, acabar tudo ou continuar esperando. Os anos passaram e um dia pedi à minha mãe par lhe telefonar e acabar com tudo, mas no fundo tinha a esperança de que ele dissesse que não queria acabar, enganei-me, dois meses depois estava casado. A minha mãe voltou a dizer-me – vês como eu tinha razão, já devias ter acabado á muito tempo. Não chorei mais, as lágrimas não caiam, mas o coração sangrava. Maria Antonieta Bastos Alentado 19-04-2017

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