Ontem, hoje e amanhã!

Retratos do dia a dia!

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Eu e a Minha Mãe 3

A vida profissional ia bem, muito embora não tivesse continuado a estudar tal como eu queria, mas mais uma vez fui impedida pela minha mãe, pois teria que o fazer à noite e isso não era compatível com a minha qualidade de “menina”. Mas pronto, tive a sorte de ter ficado logo responsável pela contabilidade industrial da firma em que trabalhei durante trinta e dois anos. Já lá chegaremos. O meu tempo voltou a ser só à janela, onde tinha vários candidatos, uns apenas passavam e olhavam, outros ficavam também à janela e iam olhando de vez em quando. Também no emprego tinha dois admiradores, mas para mim nenhum era igual ao que ainda fazia bater o meu coração. Aproximava-se o dia do meu 19º aniversário e pedi à minha mãe se podia fazer uma festa com as colegas de trabalho e os primos e primas, ela acedeu. Eu tinha um gira-discos, o Victor tinha um leitor de cassetes, e o Zé Manuel, meu colega levou também os discos que tinha, assim reuni à volta de 15 pessoas. A minha mãe esteve sempre presente, muito embora as minhas tias também lá estivessem. Dançou-se e ao som de Roberto Carlos, tanto o Zé como o Victor, pediram-me namoro. Disse não a ambos. O dia acabou e tudo ficou na mesma. Não sei exactamente em que mês o meu primo Manuel Artur foi lá a casa e levou uma agenda onde o Victor escrevia quadras destinadas a mim, em que demonstrava todo o seu sofrimento por não conseguir que eu lhe aceitasse namoro. Chorei ao ler tudo aquilo, era deveras sentido, livra. Mas não, eu não gostava dele para namorar, além disso, também me lembrava de o meu pai me ter pedido que quando voltasse a namorar fosse com um sujeito que já tivesse cumprido a tropa, e ele nem sequer ainda lá estava. Também me lembrava, mas aí já nada podia fazer, que um dia a minha madrinha ao saber que o Victor gostava de mim, pois no dia do casamento do irmão Jorge embebedou-se por causa de eu não querer dançar com ele, me disse – não o queiras, é feio, quer antes o Ângelo que é mais bonito. Pois é, mas esse já podia ser meu. Por outro lado a minha mãe também não queria que eu namorasse com ele por ele ter o feitio do pai, era agressivo e mal educado, tudo isto ela tinha presenciado naqueles meses em moramos todos juntos. Enfim, estava num beco sem saída, tinha pena dele, também por saber que já tinha saído de casa e vivia na cave da oficina onde trabalhava com o irmão Jorge. Não tinha qualquer apoio da mãe, nem de ninguém, precisava de carinho de alguém, a minha cabeça não parava, mas sabia que não o amava. Em Novembro desse ano, ele e os amigos fizeram um baile na garagem da casa dos pais, a minha tia pediu à minha mãe para me deixar lá ir, ela acedeu mas foi comigo. O Victor voltou ao assunto, eu não respondi. A minha vida em casa era uma monotonia, pouco saia, já nem com a Liete, pois ela tinha namorado e eu não. falei com ela e pedi-lhe opinião sobre o que havia de fazer, ela disse que achava que ele era boa pessoa, que tinha mudado e era apaixonado por mim, a opinião dela era que aceitasse e depois logo veria se dava ou não. Foi o que fiz, aceitei, mas sabia que não o amava. Era a única certeza que tinha. Dois meses depois ele quis tornar o namoro oficial e falou com o meu pai, que de imediato disse não. a minha mãe que já se apercebido do namoro, já me tinha proibido de o cumprimentar com um beijo (na cara), que era assim que cumprimentava todos os primos, aí eu reagi pela primeira vez e não fiz o que me pediu. Uns dias depois o Victor voltou a falar com o meu pai que voltou a dizer que queria que a filha fosse feliz, e não queria que começasse já a namorar, mas ele subiu as escadas com o tio, meu pai, e ficou quase todo o serão lá em casa. A partir daí foi tudo oficial. Era presença diária ao serão, nessa altura já tínhamos ido buscar à Vidigueira, a minha avó Maria e o tio João, então, quando se aproximava a hora dele chegar a minha mãe dizia ao meu tio para ir acender a televisão e levar a minha avó para a sala, portanto o namoro foi sempre bem acompanhado. Não podíamos sair sozinhos para lado nenhum, tal como já tinha sido anteriormente. Tudo era controlado. Se eu era feliz? Não, não era, nem os beijos tinham o mesmo sabor, nada me fazia borbulhas na barriga, nada era como já tinha sido. Amava-o? Não sabia, mas sabia que não era amor o que sentia. O tempo passava e a Liete ia casar, ora bem, era apenas com ela e o Jorge que a minha mãe me deixava sair, porque também ia a irmã Rosa, qua ainda não namorava. Depois de casada se calhar já não queria andar connosco, ele ia entrar para a tropa, o irmão Jorge já lhe tinha dito que quando fosse para o quartel, precisava do espaço onde ele tinha um divã e um roupeiro, tudo isto martelava a minha cabeça, o que fazer? Ele queria casar, e eu o que queria?! Não sabia, deixei de saber o que fazer, só sabi que queria sair da prisão em que vivia desde que nascera. Até o meu ordenado era entregue por inteiro à minha mãe, ela depois dava-me uns escuditos para uns bolitos ou gelados, nada mais que isso. Fizera vinte e um anos, era considerada maior, mas tudo continuava na mesma, sem poder ter decisão própria, ou fazer algo sem a mãe atrás. Resolvi que iria aceitar casar, mas, os meus pais não me autorizavam a fazê-lo. Pois, mas já era de maior idade, o destino, e eu acredito no destino, fez com que dissesse que mesmo sem eles quererem iriamos casar e viver num quarto alugado. Foi aí que a minha mãe se apercebeu que já não mandava em mim, então, decidiu que casaríamos e ficávamos a viver lá em casa. Assim foi, e no final de 1969 casei. Por amor? Não! por pena e por necessidade de me libertar da prisão que era a minha mãe. Maria Antonieta Bastos Alentado 19-04-2017

Sem comentários:

Enviar um comentário