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terça-feira, 18 de abril de 2017

Eu e a Minha Mãe

Nasci pobre, a minha mãe era costureira de alfaiate, o meu calceteiro, trabalhador da rua. Nasci na casa da minha avó Rosa, onde os meus pais moravam. Pouco tempo depois, o meu pai teve que vir para Lisboa à procura de trabalho. Conseguiu na firma Alves Ribeiro, hospedou-se então, numa pensão na Calçada do Correio Velho, defronte da Igreja de Santo António. Nessa pensão existiam, quartos individuais, e duas salas só para homens, uma, a sala cor-de-rosa, era onde ficavam os senhores que não querendo usar um quarto só para eles, aí ficavam, pagando menos, pois a estadia seria apenas um ou dois dias, o máximo permitido era de uma semana. A outra, a sala amarela era dos operários, que aí permaneciam, tendo acesso à cozinha onde faziam as refeições para o dia-a-dia. Foi nessa sala que o meu esteve quase dois anos, deixando-me a mim e à minha mãe, na Vidigueira. Estando já fartos de estarem longe e tendo o meu pai um trabalho fixo na dita firma, falou então com a D. Joaquina, dona da pensão, se havia hipótese de lhe alugar um quarto para ter a família com ele. Se ela aceitasse seria a primeira vez que teria alguém a tempo inteiro a viver lá. Mas aceitou, e lá viemos nós para Lisboa. O quarto não tinha mais que nove metros quadrados, era um quarto de passagem, sem porta, tinha uma cortina pesada e opaca, que dividia o suposto corredor que dava passagem a outro quarto, o quarto azul, que tinha duas camas de ferro, era um quarto de casal. O nosso tinha uma cama de ferro encostada à parede do lado esquerdo, uma mesa armário feita pelo meu pai, separava a cama onde eu dormia, um divã com colchão de palha. Por detrás desse armário ficava outra porta que dava para um outro quarto, o quarto verde, também ele um quarto de casal, mas essa porta não era usada. Voltando ao nosso quarto, junto ao varão do cortinado, havia uma corda onde tínhamos a roupa pendurada, do outro lado do cortinado, o que era um suposto corredor, que dava passagem a quem ficasse no quarto azul, a minha mãe tinha uma mala com roupa, e em cima era onde tinha alguns utensílios necessários para cozinhar, no canto esquerdo junto à porta do quarto azul, havia um lavatório de ferro e um bidé também em ferro, era aí que fazíamos toda a higiene, as necessidades eram feitas num bacio que depois a minha mãe ia despejar numa sanita que servia todos os residentes da pensão, a diferença era que os outros quem despejava os bacios era a criada, lembro-me da Rosa, que voltou para a aldeia para se casar. A cozinha era grande, com uma enorme chaminé e um fogão a enorme, a carvão, depois havia os fogões a petróleo dos homens da sala amarela e da minha mãe. Tinha uma mesa quadrada, grande, à noite a Rosa passava a roupa em cima dessa mesa, à luz do candeeiro a petróleo, também a minha mãe costurava à luz do petróleo. A filha da D. Joaquina, era professora em Setúbal, só estava presente nos fins-de-semana e nas férias. Foi mais tarde a minha madrinha, fui baptizada na Igreja da Madalena. Punha-me à vontade para andar pela casa toda, no entanto a minha mãe não deixava que eu o fizesse, só mesmo quando a minha madrinha me chamava. Gostávamos uma da outra, ela talvez porque não tinha filhos, eu porque junto dela me sentia gente, pois com a minha mãe sentia-me sempre inferior a todas as pessoas. Dizia-me sempre que não me podia esquecer que era filha de um calceteiro. Até na escola primária, as outras meninas eram superiores a mim, os pais tinham empregos, o meu trabalhava na rua, e foi assim ao longo de toda a minha vida escolar. Por vezes, nos intervalos, isolava-me das colegas, eu não sabia brincar, não sabia saltar à corda, nem à macaca, ou ao ringue, nada, eu nunca tinha brincado. Voltando à minha madrinha, os bonecos, dois, que tive foi ela quem mos deu pelo Natal, também era ela que comprava os tecidos para a minha mãe me fazer os bonitos vestidos que eu usava. Andava sempre muito bem vestida, e com um laçarote no alto da cabeça. O cabelo era sempre curto, corte à garçone, nunca tive tranças ou rabo-de-cavalo. A minha madrinha foi e é o ícone, segui-lhe os gostos, mas com uma enorme diferença, ela era rica, eu nunca o fui, mas gosto de me vestir bem, de conjugar cores, de usar perfume, de ouro, até gosto do Sporting, tal como ela gostava. Foi minha amiga e ajudou a minha mãe até ao final do meu curso, na altura, o curso geral do comércio, a partir do momento em me empreguei nunca mais me deu presentes de valor, antes pelo contrário. Enfim, ideias, mas estou-lhe grata por ter ajudado os meus pais. Voltando atrás, vivemos naquele minúsculo quarto até aos meus nove anos. Entretanto a minha avó Rosa faleceu e as minhas tias Deolinda e Delmira, esta ultima casada com o meu tio Carlos e mãe da minha prima Liete, que tinha apenas mais sete meses que eu. Viveram uns tempos na Rua da Conceição, entretanto o meu tio conseguiu um bom trabalho, era sapateiro, e alugou uma casa na estrada de Benfica, na altura alugavam-se quartos, e foi o que fizeram, mas a casa era no ultimo andar do prédio, tinha sótão, no centro era amplo, depois nos laterias era esconso, então depois muita conversa convenceram os meus pais a irem viver para esse sótão, teriam mais espaço, e combinaram que o sótão era só para dormir, pois cá em baixo é que seria feita a vida toda. Passei a ter junto de mim uma pessoa da minha idade, a Liete. O meu pai tinha arranjado o chão da parte central do sótão, para um dos cantos esconso, foi a terra que saiu do alisamento central, era nesse montinho de terra que eu e a Liete fazíamos os nossos bairros, com os brinquedos que saiam na farinha 33.Outras vezes, raras, ia eu brincar com ela para a varanda, mas logo a tia Deolinda começava a ralhar que sujávamos o chão da sala, e aí estava a minha mãe a chamar-me para ir para o inferno do sótão, gelo no inverno e forno no verão. O que supostamente seria a vida cá em baixo, passou a ser sempre lá em cima, por causa do mau feitio da tia Deolinda. E foi assim até aos meus doze anos, altura em que a minha mãe resolveu alugar casa a meias com uma outra tia, a tia Bia, que tinha também ela, vindo da Vidigueira com os quatro filhos e o marido. Fomos todos para uma casa com três assoalhadas, cozinha a casa de banho. Um quarto para os meus pais, outro para os meus tios, e a sala de jantar onde estava um divã para o meu primo mais velho, o Jorge, dormir. Continuei a dormir no quarto dos meus pais, sempre fora assim. Foi mais ou menos, um ano de suplício, pois o meu tio era um homem mau, que maltratava a mulher e os filhos, a minha mãe de imediato que lhe disse que procurasse casa e saísse dali, o mais rápido possível. Assim foi, arranjou uma casa numa rua ao fundo daquela onde nós morávamos. Nesse pouco tempo, deu para a minha mãe me proibir de falar com o meu primo Jorge, porque apanhou um papel escrito por mim em que lhe dizia que ia passar a trata-lo por tu, isto porque íamos quase todos os dias no mesmo eléctrico, para a Praça do Chile (eu saia na Praça de Espanha) e as minhas colegas gozavam-me por eu tratar um primo por você. Também me proibiu de falar com um outro primo, o Victor, por ter apanhado uma foto minha, pequenina, onde ele escrevera “amo-te”. Nada mais escrevo sobre estes escassos mas longos meses. Os meus tios e primos saíram e a minha mãe alugou o quarto onde eles estavam a uma família, a senhora Maria José, o senhor Francisco e a Fátinha, continuei portanto, a dormir no quarto dos meus pais. Assim cheguei aos meus doze anos sem nunca ter tido uma conversa com a minha mãe, sobre qualquer tipo de assunto, nem sequer sobre a menstruação. Já tinha ouvido falar na escola preparatória, entre as colegas, e também na aula de higiene e moral, também a Liete já era menstruada, mas ela tinha no pai uma pessoa à frente no tempo. Foi ele quem lhe deu o primeiro verniz para as unhas e o primeiro batom, eu até me casar estive proibida de pintar as unhas e os lábios. Um dia pela manhã vi que a menstruação me tinha visitado, nada disse à minha mãe, tinha vergonha, fui buscar uns trapos que tinham servido para brincar, outrora com a Liete, e usei como penso, fui para a escola, lógico que quando dei por mim estava toda suja, foi uma colega, a Celeste, que morava na Buraca quem me acompanhou até casa, dando-me apoio para que não me sentisse tão mal por levar a bata ao contrário e toda torcida. Quando cheguei a casa e a minha mãe viu o estado em que eu estava ralhou comigo por não lhe ter dito, mas não passou daqui, nada falámos. Doze anos sem uma única conversa. Fui para a escola secundária sendo na mesma, uma miúda introvertida, envergonhada e sentindo-me sempre inferior às outras colegas. Nada sabia da vida, isso fez de mim ainda mais curiosa sobre tudo o que não sabia. Nesse primeiro ano encontrei o meu primeiro e verdadeiro amor, um miúdo de olhos bonitos e ar travesso. Começamos a namorar, quase e só por olhares trocados e escassas conversas no comboio que ambos partilhávamos, mesmo assim e ainda hoje não sei como, a minha mãe descobriu. Um belo dia pela manhã, quando saímos do comboio, no Rossio, mesmo defronte da cabine telefónica, sinto duas fortes estaladas na cara, ia eu, ele e uma colega da minha turma. Não sei definir o que senti para além da imensa vergonha dele, da colega e de todos os que passavam na rua naquela hora de ponta. Diálogo não existiu, apenas tareia e horários trocados para que não voltasse a vê-lo. Engano dela, pois também nós trocámos os horários em que nos víamos. Diálogo com a minha mãe? Nunca! Infelizmente nunca houve qualquer tipo de conversa entre nós. Estávamos no ano de 1961. Maria Antonieta Bastos Alentado 18-04-2017 Nota- Escreverei a restante estória.

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