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quinta-feira, 27 de abril de 2017

Eu e o Trabalho

Como já disse atrás, acabei o curso com apenas 16 anos, em 1964, e de imediato fui trabalhar para o escritório da empresa CIPAN. Uma empresa com apenas quatro meses de actividade. Fui para a secção da contabilidade industrial, onde era calculado o custo do produto (antibióticos) à saída da fábrica. A Célia era a chefe, depois havia a Teresa e entrei eu. Quem orientava e direcionava toda a contabilidade industrial e geral, era o Dr. Matos (Manuel Maria de Matos), durante dois anos e em relação à CIPAN - Lisboa, também foi ele quem orientava a tesouraria, os armazéns e a secção de controle. Na minha secção o trabalho era dividido consoante o Dr, nos dizia. A Célia casou em Outubro desse mesmo ano e em Novembro saiu da empresa, ficando apenas eu e a Teresa na contabilidade industrial e numa sala só para nós. A partir daí foi a mim que o Dr. deu poderes e ensinou tudo o que passou a ser o custeio industrial, passei a ter comigo duas pessoas a trabalhar, a Teresa e a Graciete que entretanto entrou. Como era hábito da firma após os três meses de experiência, se a pessoa ficasse ao serviço recebia um aumento de 250,00 $, passei então a ganhar 1250,00 $, muito bom para a época. Aproximou-se Janeiro mês em que invariavelmente havia aumentos para todo o pessoal, passei a receber 1680,00 $, o que irritou a Rita, chefe da secção de controle, e que não estava a gostar da minha ascensão, pois tinha ciúmes do Dr. Matos , pensado ela que eu e ele tínhamos algo mais que trabalho, ela queria-o para amante, pois o senhor era casado e pai de filhos, ela era já considerada solteirona, mas para além disso, também só queria alguém que lhe desse poder e estabilidade dentro da empresa. O meu nome foi falado na administração por em tão pouco tempo já estar com o mesmo ordenado da pessoa da secção dela, com mais tempo na casa, e em quem ela confiava o trabalho. Primeira derrota. Ao longo dos anos e muito mais depois do falecimento do Dr. Matos em Maio de 1970, passei a ter todo o poder sobre a contabilidade industrial, pois mais ninguém sabia fazer os mapas até chegar ao custo final da cada produto fabricado, que também ao longo dos anos foram aumentando. A contabilidade geral (Odete) não podia fazer o fecho de contas sem que eu tivesse acabado o chamado custeio anual, para que a secção de controle (Rita) fizesse a avaliação das existências. Fiz muitos serões, muitos sábados de trabalho, trouxe muito trabalho para casa, passando fins-de-semana a trabalhar até às quatro/cinco da manhã, sem qualquer remuneração extra. Também nunca me dificultaram a vida sempre que quis fazer ponte ou faltar fosse para o que fosse, apenas tinha que preencher o papel em que dizia que a falta /s já estava compensada. Havia também o chamado saco azul, que a partir de um determinado ano, que já não me recordo qual, passei a fazer parte, recebendo pela Páscoa uma verba muito superior ao valor que receberia se tivesse exigido horas extras. O meu relacionamento com as colegas de secção, que já há muitos anos, era uma só secção onde a Odete orientava a contabilidade geral, e eu a contabilidade industrial, era bom, por vezes até muito bom, desde que a Odete não faltasse, pois quando isso acontecia, era eu quem assumia as duas funções, e aí, começava a revolta e incompreensão do porquê de ser eu e não uma delas, Falei-lhes dizendo que não tinha culpa que me chamassem a mim quer fosse para orientar, quer para as reuniões com a administração, coisa que eu estava habituada, mas relacionadas com a “minha” contabilidade. Enfim, instalava-se um mau estar geral e quando eu saia era um corte de casaca que até chateava. Tudo isto me enervava, pois não queria que assim fosse, mas a administração também não queria proceder de outro modo, para que eu não pudesse exigir outras condições e regalias, e eu aguentava, mas o meu sistema nervoso dava logo sinal, em casa todos davam por isso, eu dizia o que se passava mas também ninguém compreendia. Houve um ano em que a Odete “resolveu” faltar seis meses seguidos precisamente na altura do fecho de contas, fui eu que assumi as duas contabilidades e consegui que tudo corresse bem e fechasse-mos a tempo e horas. Nesse ano recebi no tal envelope secreto 320.000$00, muito dinheiro para aquela época. o ambiente na secção foi de trombas, mas todas colaboraram fazendo o trabalho que lhes competia. Houve uma ocasião em que fui informada que iria assumir a minha função e também a da Rita, ficando responsável pela secção dela. Pensei, falei em casa e resolvi que aceitaria pois sabia o que conseguiria. No dia D a Maria Arminda (administradora) chamou-me e chamou-a a ela, antes de ir ela disse-me que não iria aceitar sair, e que portanto tudo ficaria na mesma, de qualquer modo iriamos ao gabinete da administradora. Ela entrou primeiro, enquanto eu esperava no corredor, passou o patrão (Sebastião Alves) que me convidou a entrar no gabinete dele, aí deu-me os parabéns, de finalmente ir ter um lugar de acordo com as minhas competências, etc. etc. deu-me toda a força possível, e eu a saber o que a Rita estaria a falar com a outra, de seguida fomos para o corredor e como a porta da Maria Arminda já estava aberta, entrámos, então a madame disse-me o que eu já sabia, enquanto ela falava eu olhei para o patrão, ele quase envergonhado, encolheu os ombros, como quem diz, não sei o que fazer, é que após o 25 de Abril de 1974, quando ele fugiu para o Brasil passou-lhe uma procuração, que ela possuiu até ao fim deles como administradores, portanto, quem mandava era ela, e por sua vez, a vontade da Rita imperava porque tinha muitos truques na manga, inclusive, já tinha conseguido casar com o ex-cunhado do patrão, que se divorciou depois de se ter descoberto o romance dele com a dita Rita. Mais uma derrota. Fora da secção ninguém compreendia porque é que eu nunca mais passava dali, todos sabiam das minhas capacidades. Na secção todas me invejavam, até pela forma como os engenheiros ou o TOC me cumprimentavam e falavam, afinal era comigo que tudo era tratado e falado, mas enfim, passei dias muito difíceis e complicados. Ninguém dos superiores queria assumir o que a administração não assumia e quem se lixava era eu. Uns anos depois e já com a hipótese da ida do pessoal de escritório, para junto da fábrica, no Carregado, falaram-me que iria ficar responsável pelas duas contabilidades, pois a Odete iria para directora financeira. Afinal eu já fazia todo o trabalho dela, com a introdução dos computadores os meus mapas de metros de comprimento e quase outros tantos de largura, passaram a meia dúzia de folhas impressas. O que tornou o meu tempo disponível para fazer tudo o que ela fazia antes, desde coisas simples, às que eram o segredo dos deuses. Foi decidido pela administração que a partida para o Carregado seria em Junho de 1996, no entanto, em 1995 foi a secção da Rita, como cobaia, para dar o exemplo. A mulher de um colega estava grávida e desmaiou no metro quando ia para o trabalho, ele foi informado da situação e que ela estava internada, por volta das 10 horas, pediu a tudo a todos para que o levassem a Vila Franca de Xira para apanhar o comboio para Lisboa para estar com a mulher, apenas à hora do almoço, um colega se disponibilizou por especial favor, para o levar ao comboio, só quase a o final da tarde se encontrou com a mulher. Toda esta situação fez-me imensa confusão devido à situação dos meus pais, ele com Parkinson e a minha mãe com problemas de coração, de tensões altíssimas, e ambos com problemas nos ossos. O que fazer? O Victor disse-me para fazer o que achasse melhor. E eu, o que fazer? Chegámos a 1996 e recebemos uma circular da administração confirmando a transferência a partir de Abril e até Junho, todos estaríamos no Carregado. Fui ao sindicato expus a situação e perguntei o que me aconselhavam, o advogado aconselhou-me a escrever uma carta à administração expondo a minha situação familiar informando que não iria, e depois, que aguardasse a resposta. Assim fiz. Decorria o mês de Fevereiro, em que já era necessário trabalhar ao sábado para o fecho de contas, quando eu ia sair para almoçar, sai-me ao caminho a maria Arminda que com um sorriso sarcástico me diz – recebemos uma carta sua, mas aquilo não é verdade, pois não? A Antonieta não nos vai deixar?! Ao que eu respondi que sim, ia deixá-los pelos motivos apresentados na carta. Com o mesmo sorriso sarcástico ela diz-me – a Antonieta fica, nós damos-lhe 500 contos e o papel para o fundo de desemprego, daqui a dois anos os seus pais já morreram, e nós damos-lhe de novo o seu trabalho lá. Foi a gota de água, nesse sábado já não voltei, durante a semana não fiquei depois do horário normal, resumindo, houve uma reunião com todos os engenheiros, a Odete, o director contabilístico, a administração e eu, para me pedirem que cumprisse os prazos para que pudesse ser feito o fecho de contas a tempo e horas. Por dentro ria de prazer, mas muito séria e selecta, disse que sim, não havia qualquer problema. E não houve, apenas e só, fiz o meu trabalho, a contabilidade industrial. No dia 10 de Abril, dia que o advogado do sindicato tinha dito como ultimo após a data da carta, despedi-me de todos os engenheiros, com quem sempre tive um relacionamento profissional cinco estrelas, despedi-me do director e da Odete. Foi muito bonito saber que iria fazer falta para algumas pessoas. Profissionalmente sempre fui considerada muito boa profissional, “pau para toda a obra”. Ultima derrota, ou talvez, primeira vitória. Ao fim de trinta e dois anos deixei de ser eu. Deixei de ser a brincalhona do principio, a amiga, a confidente, a explicadora, a companheira, a superiora que elas não aceitaram porque não foram informadas por quem de direito, que o era. No entanto, todas saíram no mesmo dia que eu. Na secção ficou apenas a Odete e a Amália que tinha entrado à pouco tempo. Trinta e dois anos, uma vida! Maria Antonieta Bastos Alentado 27-04-2017

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