Ontem, hoje e amanhã!

Retratos do dia a dia!

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Parabéns, Meu Amor

Era uma tarde quente de Agosto. Tu, quiseste sair do aconchego do meu ventre. Fizeste de mim a mãe que sou. E, que mãe sou eu? Dei-te todo o meu amor e carinho desde o momento em que nasceste. Dei-te o colo que desejaste, sem um queixume, subindo a rua que ia da praia até à casa do tio Carvoeiras, em Vila Nova de Milfontes, na esturra do calor de verão. Ou, nas sestas em que adormecias ao meu colo e durante horas me mantinha sentada com a tua cabeça deitada no meu braço. Ou ainda quando teimosamente não querias adormecer e a noite já caminhava, e eu te adormecia, de novo, no meu colo. E nas noites em que acordavas com medo, lá ia eu sentar-me no chão ao lado da tua cama, até que adormecesses. Quando uma vez caíste do triciclo, por detrás da oficina do pai, fui eu que carreguei contigo ao colo e te levei no carro do tio Rui, porque o pai estava ocupado a trabalhar, até à policlínica aonde te foi feito o tratamento ao joelho, face e braço. Mais tarde fui eu que fiz de compincha quando um professor me contou algo menos bom, em relação ao teu comportamento no recreio da escola, e nada contei ao teu pai para não arranjar problemas contigo. A seguir quando do teu primeiro namoro oficial, também fui eu que dei a volta ao teu pai para o convencer que era melhor autorizar do que andares pela rua ao beijos e abraços. E aquando do casamento também fui eu a convencê-lo. Fui eu que me sentei na tua cama, na véspera deste casamento, e te disse que se acaso não quisesses seguir em frente, eu assumiria tudo e desmarcava, falando com todas as pessoas intervenientes. Ao longo do tempo fui-me apercebendo que nada corria bem convosco, pensei que se vivessem sozinhos a situação melhorava, pois isso acontecera comigo, daí falarmos na hipótese da compra de uma casa para ti/vós. Dito e feito e a casa foi comprada, mas não resultou, não sei se foste tu que o puseste na rua, se foi ele que saiu, sei que apareceu para voltar a dormir aqui porque não tinha aonde ficar. Se pensas que foi com satisfação que o deixei aqui ficar até o convencer a ir embora, estás muito enganada, por mim ele nunca aqui tinha ficado, mas por outro lado também não achei jeito deixá-lo na rua. Por outro lado também não queria de modo algum que ele me considerasse uma inimiga, porque no caso de se divorciarem, eu queria convence-lo a abdicar da casa, ela era tua, tínhamos sido nós a pagar todas as despesas inerentes à compra, a casa era só tua, ele não tinha nada lá. E consegui. Até ao divórcio mantive sempre com ele bastante contacto, sendo até confidente e conselheira, depois, aos poucos fui-me afastando dessa amizade, ora não atendendo o telefone, ora inventando qualquer coisa para terminar a conversa, não sei se percebeu ou não, mas sei que se afastou. As escassas vezes que me quiseste como ouvinte, estive presente, dei-te o apoio que soube, se não foi o que querias, não foi por mal, foi talvez por não o saber fazer de outra forma. Monetariamente não posso fazer mais do que faço, quando podia sempre te ajudei. Amor, esse é incondicional, e tu sabes o que é o amor de uma mãe pelos seus filhos. Pelo facto de ralharmos ou gritarmos, tu também gritas com os teus, não significa que não gostemos deles. O meu amor por ti é 44 anos maior, do que no dia em que nasceste. Se necessário for darei a vida por ti, és a minha filha, que amo muito. Se tenho mau feitio, tenho, tu também tens, todos temos mais ou menos, um feitio complicado e diferente de pessoa para pessoa. Não tive uma infância nem uma adolescência feliz, antes pelo contrário, o que fez de mim uma pessoa revoltada, aquilo a que chamas “fazer-me de vítima”, deve-se em muito aos meus primeiros vinte um anos de vida. Depois, bem depois, também não tem sido fácil, mas isso já é outro assunto, já passei muito, agora já consigo viver com um pouco mais de paciência, para a vida que me surge a cada dia que passa. Hoje tenho a maior riqueza do mundo, e foste tu quem ma ofertou, os meus netos, são a minha alegria, a minha força para continuar. Hoje quero ser feliz contigo, minha filha. Maria Antonieta Oliveira 17-08-2017

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Balança

Gostava de olhar para trás e dizer: - fui feliz. E fui, em determinados momentos. E se puser esses momentos na balança para que lado ela pesará?! Para os bons, os felizes, ou para os menos e até maus momentos, os infelizes?! A vida é complicada, eu sei. Os meus pais tiveram uma vida difícil em termos monetários, mas nunca me faltaram com coisa alguma, do é essencial para viver. Os poucos brinquedos que tive, foram ofertados pela minha madrinha, ou então, aqueles que saiam na caixa de farinha 33, pequeninos mas muito engraçados. Brinquei sozinha, sem crianças comigo. Não soube o que era ter amigas, ou brincar na rua, ou saltar à corda, ou jogar ao ringue, não vivi a meninice normal de uma criança, por mais pobre que fossem, tinham amigas e brincavam com elas. Não fui adolescente como qualquer outra adolescente. As amizades que tinha, ficavam pela escola, fora disso não tinha amigas, continuei a minha caminhada sozinha. As descobertas eram feitas apenas e só por mim, boas ou más, eram a minha descoberta. Não podia sair de casa com ninguém sem que a minha mãe me acompanhasse, o que era complicado para mim ter sempre a sua presença em tudo o que fazia. Ensinou-me a mentir, pois assim conseguia fugir às suas imposições, o pior era quando ela descobria as minhas tramoias, os castigos nunca foram dóceis, até bastante tarde as tareias eram uma constante, assim como os adjectivos menos próprios de serem ouvidos por uma criança e depois por uma adolescente. Encontrei o amor, num miúdo com uns olhos lindos que me cativaram, com muitos contratempos pela parte dos meus pais, especialmente da minha mãe, mas superei tudo isso e amamo-nos durante quase cinco anos. Chorei muitas lágrimas provocadas pelas suas longas ausências, e por saber que tinha outras namoradas, mas depois, e na tal balança, o amor era maior que tudo o que não me agradava, e o tempo passou. Também no namoro a presença da minha mãe foi uma constante. Tudo acabou, fiquei revoltada com a situação e infeliz. O tempo passou outro amor, ou talvez não, nunca soube ao certo se era amor o que me levou a casar com quem casei, mas foi uma forma de me livrar da opressão da minha mãe. Outra vida. Fui mãe aos 25 anos, até aí a minha vida tinha sido pautada por momentos felizes, infelizes, tristes, de revolta, de desânimo, de força de seguir em frente, e fui seguindo em frente. O meu ordenado era para tudo, excepto a gasolina do carro e refeições fora de casa. A conversa foi sempre a mesma ao longo de todos os anos: - a oficina não tem dinheiro – e, se eu queria algo ou ir de férias, tinha que ter dinheiro para o fazer. Também fui eu que paguei os estudos da filha e o enxoval dela. Era eu quem comprava a roupa e calçado para os três, pois era. Os carros sucederam-se em catadupa, bem contados chegaram de certeza a uma centena, 95% foram vendidos com prejuízo. Com as vendas a pronto e as compras a prestações, foi construída a casa na Charneca da Caparica. Foram fins-de-semana sobre fins-de-semana, sem parar, a caminhar para lá a aturar bêbados que iam trabalhar na obra. Depois de “pronta” continuaram os fins-de-semana, mas a aturar família e amigos que só se lembravam de nós quando queriam ir para lá descansar, pois o trabalho e as despesas com o comer, era nosso. Foram vinte anos de bons e mus momentos, na tal balança penderia de certeza para os maus momentos. Só concordei com a venda, depois de ter a certeza que seria comprada uma casa na Vidigueira, pois caso contrário, o dinheiro desaparecia todo. Foi o que fizemos. Durante os quinze anos em a tivemos, na tal balança, ficava imóvel, nem momentos felizes nem infelizes, nada, absolutamente nada. O valor da venda foi para pagar o que devia, quer a fornecedores, quer ao Unibanco e ao hospital do SMAS. Reformei-me cedo demais, com uma penalização de 45%, mas tive que o fazer, mais uma vez – a oficina não tinha dinheiro – fiquei com uma reforma de merda, neste momento é de 458€. O Victor só começou a descontar para a SS quando foi obrigado a fazê-lo e sempre pelo ordenado mínimo, a reforma é de 407€, já depois deste celebre aumento de 10€. Hoje torce a orelha mas já não há nada a fazer. As despesas continuam a ser as mesmas, seguros de carro e carrinha, IMI, IUC de ambos os carros, inspecções, gasóleo, água, luz, gás, TV, telefone e internet, medicamentos que antes não haviam mais os que já existiam, comer e beber, e por aí fora, agora sou eu quem orienta ambas as reformas de modo a pagar tudo sem ficar a dever nada, o que não é nada fácil. E a tal balança como fica aqui? – nem sei definir, é muito complicado, muito complicado. O tempo passa e os momentos continuam a ser felizes e infelizes, já não há meio-termo. A paciência esgota-se num ápice e as discussões surgem com as já habituais palavras menos bonitas, a falta de respeito instalou-se há muito e continua. A seguir os pedidos de desculpa, mais uns momentos e tudo volta ao mesmo. Entretanto e há apenas dois anos reencontrei-te, foi bom, muito bom. A tal balança vira com rapidez para os momentos felizes. Momentos muito felizes. - RECORDO: - Os bons momentos em que a minha mãe me mimava com beijinhos, enquanto miúda. - A subida da Av. Almirante Reis até Arroios, onde morava o meu padrinho, e ouvir o meu pai cantarolar o raspa, e assobiar também, para que eu subisse sem querer colo. - Momentos passados com a minha madrinha, minha musa, e conversas tidas com ela. - O Castelo de S. Jorge e tudo o que lá vivi - A escola Patrício Prazeres e os momentos lá passados, onde deu azo à minha rebeldia de adolescente, mentindo à minha mãe e saindo da escola sem que ela soubesse. - A estalada que a minha mãe me deu defronte dos CTT junto à estação dos comboios no Rossio. - Férias com a minha prima Liete, o marido e os nossos respectivos filhos, a percorrer o país, e/ ou na praia. - O nascimento da minha filha e os dias passados na ASMECDL, com um calor abrasador. O Victor dormiu sempre no quarto onde eu estava. - As noites por dormir, os sorrisos, os choros e birras para comer, os primeiros passos, os dentes, enfim, tudo o que um bebé nós dá, bom e mau. Claro que aqui vencem os bons momentos. Depois a escola em Benfica e a seguir em Caneças, onde começaram os namoricos. Foi sempre boa aluna. Fui cúmplice sempre que havia asneira, pois o pai não sabia lidar com ela. O casamento atribulado, os relacionamentos que se seguiram ao divórcio, e agora este casamento, que na minha opinião a única coisa boa são os meninos. - O meu Rafito que tive nos braços desde bebé. Passava os fins-de-semana connosco para os pais descansarem. Tinha apenas quatro meses quando os pais foram passar uma semana ao Brasil, e ele ficou connosco, no Alentejo. Até a irmã ser já crescidinha, foi muito meu, passou muitos dias seguidos comigo. Depois houve uma fase em que me foi imposto que ele estaria se a irmã estivesse, e como ela não queria, porque sempre foi criada mais com a mãe, ele também não estava. Foi complicado. Mas, como entretanto era preciso ir busca-los à escola, lá ia a caminho do Montijo e via-os. Agora tenho os dois, ambos me dão muito carinho. Ambos me dão muito amor puro e verdadeiro. Sem qualquer duvida que a balança vai para a felicidade. - Também recordo o emprego, único, apenas na CIPAN, com bons e maus momentos. Reconhecida pela entidade patronal e por todos os superiores hierárquicos, mas rodeada de inveja por algumas colegas, o que tornava o ambiente desconfortável. Aqui a balança iria para os bons momentos. - Os gritos que dei e ouvi em discussões com o Victor e com a Carla, ao longo de muitos anos. - A frase que sempre ouvi e ouço – gosto de ti à minha maneira – e gosta, acredito, mas tal como diz – à sua maneira. - AGRADEÇO: - À minha mãe por tudo o que fez por mim, mesmo o que não gostei, pois a intenção foi a melhor, ela só queria o meu bem, daí a sua infinda protecção. - Ao meu pai pela paciência que teve para com a minha mãe e por mesmo bêbado nunca ter dado mau ambiente. - A ti por teres voltado, embora saibamos que temos uma vida para além de nós, é bom saber que estás, que és presente. - A Deus, porque creio que nada acontece por acaso, e não foi um acaso que fez com que a minha vida fosse o que tem sido. Os bons e os maus momentos têm feito de mim, a pessoa que sou hoje. Posso considerar-me uma pessoa saudável, muito embora, desde menina tenha problemas com o sistema nervoso. Já com várias depressões, que aos olhos, especialmente da minha filha, o não são, são apenas o meu mau feitio e a mania de me fazer de coitadinha, de vítima. - Ao fim, e ao cabo, agradeço à vida por me dar a vida que vivo. Uma reflexão difícil de compreender, quando afinal, já pensei tantas vezes em desistir da vida. Maria Antonieta Bastos Alentado 10-08-2017 (23 h 15 m)