Ontem, hoje e amanhã!

Retratos do dia a dia!

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Momentos Que Ficam

Um olhar terno, um sorriso meigo, mas, - quem és tu? Quem sou eu? De onde te conheço? Raios partam estas doenças que nos fazem perder no/do mundo, quando ainda fazemos parte dele. Conhece-me desde que nasci. Uma gargalhada e repete – desde que nasci, continua sorrindo. Aquele sorriso gaiato de quem acabara de fazer 90 anos. Sim, desde que nasci, é a minha madrinha. Fixando-me tenta recuar no tempo, mas não, não sabe quem sou. O filho, simpaticamente, tenta ajudar nas memórias, mas o passado parece estar definitivamente arrumado num recanto longínquo da mente. Uma foto, talvez uma foto antiga resulte. Eu, com cinco anos, não, também não lhe avivou a memória. De repente lembrei-me que há pouco tempo, tinha postado no facebook, uma foto da minha mãe, nos tempos da juventude, em que ambas eram amigas e partilhavam vivências de adolescentes. Uma exclamação, um sorriso feliz e saudoso – a Chica, a minha grande amiga, éramos muito amigas, e, uma lágrima desliza, confirmando a saudade. A Chica, a Francisca, a minha grande amiga, éramos muito amigas, outros tempos. E esta frase foi repetida, vezes sem conta, num sorriso replecto de emoção, e uma lágrima teimava em deslizar. As mãos nas minhas mãos, beijos de muito carinho e a Chica, a Francisca, sempre presente naquele rosto emocionado. As recordações surgem em catadupa. As saudades e as perguntas repetem-se num desencontro da mente. E numa cumplicidade saudosa, juntei a minha lágrima, à lágrima da minha madrinha. Maria Antonieta Bastos Alentado 14-05-2018

sábado, 3 de março de 2018

O Nosso Almoço

Chovia copiosamente, estava um daqueles dias em que apetecia ficar no aconchego do lar, no entanto, vinte e quatro loucos, enfrentaram a chuva e resolveram juntar-se num almoço de confraternização familiar, decerto o primeiro de muitos que se seguirão. Cheguei cedo. Queria chegar cedo. Entrei, depois de me identificar pelo meu apelido paternal, foi-me indicado o local aonde iria ser servido o repasto. Analisei ao pormenor o visual, e, gostei do que vi. Posicionei-me de forma a ver a porta na ânsia de os ver chegar, parecia-me quase impossível, mas, estava a acontecer. Esperei, esperei, de repente vejo os meus amores, dirigi-me para aporta que já estava aberta e segura por um dos simpáticos empregados. Para além dos mues amores vindos do Montijo, também lá estavam uns outros amores vindos da melhor praia do mundo, Vila Nova de Milfontes. Beijinhos e abraços, sorrisos, muitos sorrisos e as conversas vão-se pondo em dia. Aos poucos o pessoal vai chegando, os beijinhos e abraços, os sorrisos repetem-se. Depois de todos acomodados, o repasto é servido. O que aparentava ser um almoço de dois grupos, acabou sendo uma tarde replecta de emoções e amizade partilhada, em que o sangue dos “Alentados” parecia correr também, nas veias dos “penetras”. Hoje fomos vinte e quatro, amanhã, na Vidigueira, seremos vinte e quatro, ou muitos mais, sejamos quantos formos, seremos sempre ALENTADO. Maria Antonieta ALENTADO Oliveira 03-03-2018

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Crónica de uma tarde

“ Partilhar o Inverno contigo é fazer mais habitável a poesia. A textura da manhã alimenta-se das nossas bocas e, às vezes, a tristeza solidifica-se nas minhas mãos. “ “ Não precisas dos olhos porque a cegueira é um arco-íris e na tua visão somos camaleões. “ A tarde ia longa e, mais um entre muitos outros, acidente na Ponte Salazar, fazia com que o apresentador não aparecesse. Um contratempo que alguns dos presentes (mais especificamente um), transformaram em momentos de riso. A tarde prosseguia, numa quase noite, e, o poeta presente, a autora da ilustração da capa e o editor, abriram o evento. Por momentos as piadas continuaram até que o autor, no seu jeito delicado, controlou a situação. Falou o editor, a autora da ilustração da capa e de seguida, o poeta-autor que começou por pedir desculpa pelo atraso (ele que cumpre com rigor os horários), do início da apresentação do seu último livro, o oitavo, em parceria com um poeta galego. Com o seu dom de palavra foi dissertando sobre como conheceu cada um dos intervenientes na feitura do livro, começando logicamente, pelo poeta co-autor, seguido do autor do prefácio, também poeta, ausente por motivos familiares, sobre poesia e poetas e, sobre a escuridão de sentires. Neste entretanto chegou, cansado e nervoso, o apresentador que finalmente se tinha libertado do congestionamento na ponte, que desde 1966 une as duas margens do Rio Tejo, em Lisboa. A partir daí a escuridão da noite deu voz à luz das palavras trocadas entre autor, apresentador e editor. Falaram de tudo o que concerne à feitura de um livro, desde o envio do PDF, até ao folhear do leitor. Ouvi, aprendi e compreendi. Os amigos presentes leram alguns poemas do livro, tentando descobrir quem escreveu o quê, a maioria acertou. A maioria, são amigos, de vários anos, do autor presente. Amigos que não falham, que estão sempre presentes mesmo que ausentes. Os outros, os outros amigos, ficaram na escuridão de um final de tarde em que as palavras se uniram, a amizade se fomentou e, embora a noite, já era tarde, a vontade de ficar era uma constante entre todos, nem a falta do jantar nos incitou a arredar pé. Tinha que ser. Um a um, formando pequenos grupos, fomos saindo. Beijos e abraços trocados e, até à próxima. Obrigada, Emanuel Lomelino. Maria Antonieta Oliveira 26-02-2018

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Parabéns, Meu Amor

Era uma tarde quente de Agosto. Tu, quiseste sair do aconchego do meu ventre. Fizeste de mim a mãe que sou. E, que mãe sou eu? Dei-te todo o meu amor e carinho desde o momento em que nasceste. Dei-te o colo que desejaste, sem um queixume, subindo a rua que ia da praia até à casa do tio Carvoeiras, em Vila Nova de Milfontes, na esturra do calor de verão. Ou, nas sestas em que adormecias ao meu colo e durante horas me mantinha sentada com a tua cabeça deitada no meu braço. Ou ainda quando teimosamente não querias adormecer e a noite já caminhava, e eu te adormecia, de novo, no meu colo. E nas noites em que acordavas com medo, lá ia eu sentar-me no chão ao lado da tua cama, até que adormecesses. Quando uma vez caíste do triciclo, por detrás da oficina do pai, fui eu que carreguei contigo ao colo e te levei no carro do tio Rui, porque o pai estava ocupado a trabalhar, até à policlínica aonde te foi feito o tratamento ao joelho, face e braço. Mais tarde fui eu que fiz de compincha quando um professor me contou algo menos bom, em relação ao teu comportamento no recreio da escola, e nada contei ao teu pai para não arranjar problemas contigo. A seguir quando do teu primeiro namoro oficial, também fui eu que dei a volta ao teu pai para o convencer que era melhor autorizar do que andares pela rua ao beijos e abraços. E aquando do casamento também fui eu a convencê-lo. Fui eu que me sentei na tua cama, na véspera deste casamento, e te disse que se acaso não quisesses seguir em frente, eu assumiria tudo e desmarcava, falando com todas as pessoas intervenientes. Ao longo do tempo fui-me apercebendo que nada corria bem convosco, pensei que se vivessem sozinhos a situação melhorava, pois isso acontecera comigo, daí falarmos na hipótese da compra de uma casa para ti/vós. Dito e feito e a casa foi comprada, mas não resultou, não sei se foste tu que o puseste na rua, se foi ele que saiu, sei que apareceu para voltar a dormir aqui porque não tinha aonde ficar. Se pensas que foi com satisfação que o deixei aqui ficar até o convencer a ir embora, estás muito enganada, por mim ele nunca aqui tinha ficado, mas por outro lado também não achei jeito deixá-lo na rua. Por outro lado também não queria de modo algum que ele me considerasse uma inimiga, porque no caso de se divorciarem, eu queria convence-lo a abdicar da casa, ela era tua, tínhamos sido nós a pagar todas as despesas inerentes à compra, a casa era só tua, ele não tinha nada lá. E consegui. Até ao divórcio mantive sempre com ele bastante contacto, sendo até confidente e conselheira, depois, aos poucos fui-me afastando dessa amizade, ora não atendendo o telefone, ora inventando qualquer coisa para terminar a conversa, não sei se percebeu ou não, mas sei que se afastou. As escassas vezes que me quiseste como ouvinte, estive presente, dei-te o apoio que soube, se não foi o que querias, não foi por mal, foi talvez por não o saber fazer de outra forma. Monetariamente não posso fazer mais do que faço, quando podia sempre te ajudei. Amor, esse é incondicional, e tu sabes o que é o amor de uma mãe pelos seus filhos. Pelo facto de ralharmos ou gritarmos, tu também gritas com os teus, não significa que não gostemos deles. O meu amor por ti é 44 anos maior, do que no dia em que nasceste. Se necessário for darei a vida por ti, és a minha filha, que amo muito. Se tenho mau feitio, tenho, tu também tens, todos temos mais ou menos, um feitio complicado e diferente de pessoa para pessoa. Não tive uma infância nem uma adolescência feliz, antes pelo contrário, o que fez de mim uma pessoa revoltada, aquilo a que chamas “fazer-me de vítima”, deve-se em muito aos meus primeiros vinte um anos de vida. Depois, bem depois, também não tem sido fácil, mas isso já é outro assunto, já passei muito, agora já consigo viver com um pouco mais de paciência, para a vida que me surge a cada dia que passa. Hoje tenho a maior riqueza do mundo, e foste tu quem ma ofertou, os meus netos, são a minha alegria, a minha força para continuar. Hoje quero ser feliz contigo, minha filha. Maria Antonieta Oliveira 17-08-2017

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Balança

Gostava de olhar para trás e dizer: - fui feliz. E fui, em determinados momentos. E se puser esses momentos na balança para que lado ela pesará?! Para os bons, os felizes, ou para os menos e até maus momentos, os infelizes?! A vida é complicada, eu sei. Os meus pais tiveram uma vida difícil em termos monetários, mas nunca me faltaram com coisa alguma, do é essencial para viver. Os poucos brinquedos que tive, foram ofertados pela minha madrinha, ou então, aqueles que saiam na caixa de farinha 33, pequeninos mas muito engraçados. Brinquei sozinha, sem crianças comigo. Não soube o que era ter amigas, ou brincar na rua, ou saltar à corda, ou jogar ao ringue, não vivi a meninice normal de uma criança, por mais pobre que fossem, tinham amigas e brincavam com elas. Não fui adolescente como qualquer outra adolescente. As amizades que tinha, ficavam pela escola, fora disso não tinha amigas, continuei a minha caminhada sozinha. As descobertas eram feitas apenas e só por mim, boas ou más, eram a minha descoberta. Não podia sair de casa com ninguém sem que a minha mãe me acompanhasse, o que era complicado para mim ter sempre a sua presença em tudo o que fazia. Ensinou-me a mentir, pois assim conseguia fugir às suas imposições, o pior era quando ela descobria as minhas tramoias, os castigos nunca foram dóceis, até bastante tarde as tareias eram uma constante, assim como os adjectivos menos próprios de serem ouvidos por uma criança e depois por uma adolescente. Encontrei o amor, num miúdo com uns olhos lindos que me cativaram, com muitos contratempos pela parte dos meus pais, especialmente da minha mãe, mas superei tudo isso e amamo-nos durante quase cinco anos. Chorei muitas lágrimas provocadas pelas suas longas ausências, e por saber que tinha outras namoradas, mas depois, e na tal balança, o amor era maior que tudo o que não me agradava, e o tempo passou. Também no namoro a presença da minha mãe foi uma constante. Tudo acabou, fiquei revoltada com a situação e infeliz. O tempo passou outro amor, ou talvez não, nunca soube ao certo se era amor o que me levou a casar com quem casei, mas foi uma forma de me livrar da opressão da minha mãe. Outra vida. Fui mãe aos 25 anos, até aí a minha vida tinha sido pautada por momentos felizes, infelizes, tristes, de revolta, de desânimo, de força de seguir em frente, e fui seguindo em frente. O meu ordenado era para tudo, excepto a gasolina do carro e refeições fora de casa. A conversa foi sempre a mesma ao longo de todos os anos: - a oficina não tem dinheiro – e, se eu queria algo ou ir de férias, tinha que ter dinheiro para o fazer. Também fui eu que paguei os estudos da filha e o enxoval dela. Era eu quem comprava a roupa e calçado para os três, pois era. Os carros sucederam-se em catadupa, bem contados chegaram de certeza a uma centena, 95% foram vendidos com prejuízo. Com as vendas a pronto e as compras a prestações, foi construída a casa na Charneca da Caparica. Foram fins-de-semana sobre fins-de-semana, sem parar, a caminhar para lá a aturar bêbados que iam trabalhar na obra. Depois de “pronta” continuaram os fins-de-semana, mas a aturar família e amigos que só se lembravam de nós quando queriam ir para lá descansar, pois o trabalho e as despesas com o comer, era nosso. Foram vinte anos de bons e mus momentos, na tal balança penderia de certeza para os maus momentos. Só concordei com a venda, depois de ter a certeza que seria comprada uma casa na Vidigueira, pois caso contrário, o dinheiro desaparecia todo. Foi o que fizemos. Durante os quinze anos em a tivemos, na tal balança, ficava imóvel, nem momentos felizes nem infelizes, nada, absolutamente nada. O valor da venda foi para pagar o que devia, quer a fornecedores, quer ao Unibanco e ao hospital do SMAS. Reformei-me cedo demais, com uma penalização de 45%, mas tive que o fazer, mais uma vez – a oficina não tinha dinheiro – fiquei com uma reforma de merda, neste momento é de 458€. O Victor só começou a descontar para a SS quando foi obrigado a fazê-lo e sempre pelo ordenado mínimo, a reforma é de 407€, já depois deste celebre aumento de 10€. Hoje torce a orelha mas já não há nada a fazer. As despesas continuam a ser as mesmas, seguros de carro e carrinha, IMI, IUC de ambos os carros, inspecções, gasóleo, água, luz, gás, TV, telefone e internet, medicamentos que antes não haviam mais os que já existiam, comer e beber, e por aí fora, agora sou eu quem orienta ambas as reformas de modo a pagar tudo sem ficar a dever nada, o que não é nada fácil. E a tal balança como fica aqui? – nem sei definir, é muito complicado, muito complicado. O tempo passa e os momentos continuam a ser felizes e infelizes, já não há meio-termo. A paciência esgota-se num ápice e as discussões surgem com as já habituais palavras menos bonitas, a falta de respeito instalou-se há muito e continua. A seguir os pedidos de desculpa, mais uns momentos e tudo volta ao mesmo. Entretanto e há apenas dois anos reencontrei-te, foi bom, muito bom. A tal balança vira com rapidez para os momentos felizes. Momentos muito felizes. - RECORDO: - Os bons momentos em que a minha mãe me mimava com beijinhos, enquanto miúda. - A subida da Av. Almirante Reis até Arroios, onde morava o meu padrinho, e ouvir o meu pai cantarolar o raspa, e assobiar também, para que eu subisse sem querer colo. - Momentos passados com a minha madrinha, minha musa, e conversas tidas com ela. - O Castelo de S. Jorge e tudo o que lá vivi - A escola Patrício Prazeres e os momentos lá passados, onde deu azo à minha rebeldia de adolescente, mentindo à minha mãe e saindo da escola sem que ela soubesse. - A estalada que a minha mãe me deu defronte dos CTT junto à estação dos comboios no Rossio. - Férias com a minha prima Liete, o marido e os nossos respectivos filhos, a percorrer o país, e/ ou na praia. - O nascimento da minha filha e os dias passados na ASMECDL, com um calor abrasador. O Victor dormiu sempre no quarto onde eu estava. - As noites por dormir, os sorrisos, os choros e birras para comer, os primeiros passos, os dentes, enfim, tudo o que um bebé nós dá, bom e mau. Claro que aqui vencem os bons momentos. Depois a escola em Benfica e a seguir em Caneças, onde começaram os namoricos. Foi sempre boa aluna. Fui cúmplice sempre que havia asneira, pois o pai não sabia lidar com ela. O casamento atribulado, os relacionamentos que se seguiram ao divórcio, e agora este casamento, que na minha opinião a única coisa boa são os meninos. - O meu Rafito que tive nos braços desde bebé. Passava os fins-de-semana connosco para os pais descansarem. Tinha apenas quatro meses quando os pais foram passar uma semana ao Brasil, e ele ficou connosco, no Alentejo. Até a irmã ser já crescidinha, foi muito meu, passou muitos dias seguidos comigo. Depois houve uma fase em que me foi imposto que ele estaria se a irmã estivesse, e como ela não queria, porque sempre foi criada mais com a mãe, ele também não estava. Foi complicado. Mas, como entretanto era preciso ir busca-los à escola, lá ia a caminho do Montijo e via-os. Agora tenho os dois, ambos me dão muito carinho. Ambos me dão muito amor puro e verdadeiro. Sem qualquer duvida que a balança vai para a felicidade. - Também recordo o emprego, único, apenas na CIPAN, com bons e maus momentos. Reconhecida pela entidade patronal e por todos os superiores hierárquicos, mas rodeada de inveja por algumas colegas, o que tornava o ambiente desconfortável. Aqui a balança iria para os bons momentos. - Os gritos que dei e ouvi em discussões com o Victor e com a Carla, ao longo de muitos anos. - A frase que sempre ouvi e ouço – gosto de ti à minha maneira – e gosta, acredito, mas tal como diz – à sua maneira. - AGRADEÇO: - À minha mãe por tudo o que fez por mim, mesmo o que não gostei, pois a intenção foi a melhor, ela só queria o meu bem, daí a sua infinda protecção. - Ao meu pai pela paciência que teve para com a minha mãe e por mesmo bêbado nunca ter dado mau ambiente. - A ti por teres voltado, embora saibamos que temos uma vida para além de nós, é bom saber que estás, que és presente. - A Deus, porque creio que nada acontece por acaso, e não foi um acaso que fez com que a minha vida fosse o que tem sido. Os bons e os maus momentos têm feito de mim, a pessoa que sou hoje. Posso considerar-me uma pessoa saudável, muito embora, desde menina tenha problemas com o sistema nervoso. Já com várias depressões, que aos olhos, especialmente da minha filha, o não são, são apenas o meu mau feitio e a mania de me fazer de coitadinha, de vítima. - Ao fim, e ao cabo, agradeço à vida por me dar a vida que vivo. Uma reflexão difícil de compreender, quando afinal, já pensei tantas vezes em desistir da vida. Maria Antonieta Bastos Alentado 10-08-2017 (23 h 15 m)

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Aliviar o Stress

Não sei o que tenho, o que se passa comigo, a quem amo, a quem odeio, porque sofro, o que sinto. A minha vida é um turbilhão de emoções. Virou um caos. Já não temos paciência um para o outro, até parece que nos odiamos, talvez, quem sabe. De tudo surge uma discussão onde os palavrões de sempre voltam de novo. Dizes e eu respondo, a falta de respeito está instalada, aliás, quase sempre assim foi. Por tudo e por nada nos pegamos. É triste viver assim. Nada me resta, para além de um pouco, os meus netos e tu. Conheces-me bem, sabes que não estou bem, e eu minto-te, não te quero preocupar, e também não sei o que te dizer, porque no fundo não sei o que tenho. Por vezes comparo-me com o que senti já várias vezes, mas que já há alguns anos não sentia, as minhas depressões, sim, depressões por vezes até bastantes prolongadas e graves. Os pensamentos são os mesmos e mais alguns, já não penso só em abrir a porta do carro em andamento, ou em tomar comprimidos em dose exagerada, isso já é pouco. Agora as facas tentam-me, quer para me agredir, quer para agredir outrem. Olho-as e desafiam-me, tenho medo de mim. Sei que só Deus é Senhor para me levar daqui, sei que se o fizer e conseguir partir, nunca mais terei paz, afinal, é a paz que procuro. A minha cabeça parece oca, vazia, desnorteada, por vezes não digo coisa com coisa, esqueço-me do que vou fazer ou dizer, descontrolo-me com facilidade e perco a razão. Sei que tens dias em que também não estás bem, também já te conheço. “Se eu pudesse, ter-te-ia dito: - espera amor, que eu vou passear contigo” Quantas vezes, estas palavras surgem no meu pensamento, mas não posso, não devo. Por mim e por ti, não posso nem devo. Escrevo para aliviar o meu sofrimento moral, já que o físico, nem com as drogas habituais lá vai. Não odeio ninguém, não, ninguém merece o meu ódio. Mas amo, sim amo e sei a quem amo. Sei por quem o meu coração bate mais forte. Amor que vivo e sinto como uma adolescente enamorada. Amor, amor eterno pelos meus netos, que não merecem que a avó os faça sofrer, porque eles, amam-me. Sinto-o e sei que é puro e verdadeiro. Amor pela filha, muito embora ela por vezes, muitas vezes, me deixe triste e infeliz com as atitudes e as palavras que me diz. Queria amar a vida mas já não a amo. Ela traiu-me e trai-me a cada minuto que passa. Será que algum dia consigo dizer – “finalmente sou feliz!” ?! Mas a felicidade são momentos, e eu tenho momentos de felicidade. Quando ouço a tua voz, quando sinto as tuas mãos nas minhas, quando sinto o calor do teu corpo, quando sinto os teus lábios nos meus, até quando penso em ti, sou feliz. Serei?! Depende daquilo que penso. Portanto, sou feliz! Tenho que saber viver cada momento que a vida me dá, em que me sinta feliz, e nos restantes momentos, viver a recordação desses mesmos momentos, para me sentir feliz, e assim, serei sempre feliz. Até parece fácil, mas não é. Mas eu quero e preciso ser feliz! Maria Antonieta Oliveira 29-06-2017

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Eu e o Trabalho

Como já disse atrás, acabei o curso com apenas 16 anos, em 1964, e de imediato fui trabalhar para o escritório da empresa CIPAN. Uma empresa com apenas quatro meses de actividade. Fui para a secção da contabilidade industrial, onde era calculado o custo do produto (antibióticos) à saída da fábrica. A Célia era a chefe, depois havia a Teresa e entrei eu. Quem orientava e direcionava toda a contabilidade industrial e geral, era o Dr. Matos (Manuel Maria de Matos), durante dois anos e em relação à CIPAN - Lisboa, também foi ele quem orientava a tesouraria, os armazéns e a secção de controle. Na minha secção o trabalho era dividido consoante o Dr, nos dizia. A Célia casou em Outubro desse mesmo ano e em Novembro saiu da empresa, ficando apenas eu e a Teresa na contabilidade industrial e numa sala só para nós. A partir daí foi a mim que o Dr. deu poderes e ensinou tudo o que passou a ser o custeio industrial, passei a ter comigo duas pessoas a trabalhar, a Teresa e a Graciete que entretanto entrou. Como era hábito da firma após os três meses de experiência, se a pessoa ficasse ao serviço recebia um aumento de 250,00 $, passei então a ganhar 1250,00 $, muito bom para a época. Aproximou-se Janeiro mês em que invariavelmente havia aumentos para todo o pessoal, passei a receber 1680,00 $, o que irritou a Rita, chefe da secção de controle, e que não estava a gostar da minha ascensão, pois tinha ciúmes do Dr. Matos , pensado ela que eu e ele tínhamos algo mais que trabalho, ela queria-o para amante, pois o senhor era casado e pai de filhos, ela era já considerada solteirona, mas para além disso, também só queria alguém que lhe desse poder e estabilidade dentro da empresa. O meu nome foi falado na administração por em tão pouco tempo já estar com o mesmo ordenado da pessoa da secção dela, com mais tempo na casa, e em quem ela confiava o trabalho. Primeira derrota. Ao longo dos anos e muito mais depois do falecimento do Dr. Matos em Maio de 1970, passei a ter todo o poder sobre a contabilidade industrial, pois mais ninguém sabia fazer os mapas até chegar ao custo final da cada produto fabricado, que também ao longo dos anos foram aumentando. A contabilidade geral (Odete) não podia fazer o fecho de contas sem que eu tivesse acabado o chamado custeio anual, para que a secção de controle (Rita) fizesse a avaliação das existências. Fiz muitos serões, muitos sábados de trabalho, trouxe muito trabalho para casa, passando fins-de-semana a trabalhar até às quatro/cinco da manhã, sem qualquer remuneração extra. Também nunca me dificultaram a vida sempre que quis fazer ponte ou faltar fosse para o que fosse, apenas tinha que preencher o papel em que dizia que a falta /s já estava compensada. Havia também o chamado saco azul, que a partir de um determinado ano, que já não me recordo qual, passei a fazer parte, recebendo pela Páscoa uma verba muito superior ao valor que receberia se tivesse exigido horas extras. O meu relacionamento com as colegas de secção, que já há muitos anos, era uma só secção onde a Odete orientava a contabilidade geral, e eu a contabilidade industrial, era bom, por vezes até muito bom, desde que a Odete não faltasse, pois quando isso acontecia, era eu quem assumia as duas funções, e aí, começava a revolta e incompreensão do porquê de ser eu e não uma delas, Falei-lhes dizendo que não tinha culpa que me chamassem a mim quer fosse para orientar, quer para as reuniões com a administração, coisa que eu estava habituada, mas relacionadas com a “minha” contabilidade. Enfim, instalava-se um mau estar geral e quando eu saia era um corte de casaca que até chateava. Tudo isto me enervava, pois não queria que assim fosse, mas a administração também não queria proceder de outro modo, para que eu não pudesse exigir outras condições e regalias, e eu aguentava, mas o meu sistema nervoso dava logo sinal, em casa todos davam por isso, eu dizia o que se passava mas também ninguém compreendia. Houve um ano em que a Odete “resolveu” faltar seis meses seguidos precisamente na altura do fecho de contas, fui eu que assumi as duas contabilidades e consegui que tudo corresse bem e fechasse-mos a tempo e horas. Nesse ano recebi no tal envelope secreto 320.000$00, muito dinheiro para aquela época. o ambiente na secção foi de trombas, mas todas colaboraram fazendo o trabalho que lhes competia. Houve uma ocasião em que fui informada que iria assumir a minha função e também a da Rita, ficando responsável pela secção dela. Pensei, falei em casa e resolvi que aceitaria pois sabia o que conseguiria. No dia D a Maria Arminda (administradora) chamou-me e chamou-a a ela, antes de ir ela disse-me que não iria aceitar sair, e que portanto tudo ficaria na mesma, de qualquer modo iriamos ao gabinete da administradora. Ela entrou primeiro, enquanto eu esperava no corredor, passou o patrão (Sebastião Alves) que me convidou a entrar no gabinete dele, aí deu-me os parabéns, de finalmente ir ter um lugar de acordo com as minhas competências, etc. etc. deu-me toda a força possível, e eu a saber o que a Rita estaria a falar com a outra, de seguida fomos para o corredor e como a porta da Maria Arminda já estava aberta, entrámos, então a madame disse-me o que eu já sabia, enquanto ela falava eu olhei para o patrão, ele quase envergonhado, encolheu os ombros, como quem diz, não sei o que fazer, é que após o 25 de Abril de 1974, quando ele fugiu para o Brasil passou-lhe uma procuração, que ela possuiu até ao fim deles como administradores, portanto, quem mandava era ela, e por sua vez, a vontade da Rita imperava porque tinha muitos truques na manga, inclusive, já tinha conseguido casar com o ex-cunhado do patrão, que se divorciou depois de se ter descoberto o romance dele com a dita Rita. Mais uma derrota. Fora da secção ninguém compreendia porque é que eu nunca mais passava dali, todos sabiam das minhas capacidades. Na secção todas me invejavam, até pela forma como os engenheiros ou o TOC me cumprimentavam e falavam, afinal era comigo que tudo era tratado e falado, mas enfim, passei dias muito difíceis e complicados. Ninguém dos superiores queria assumir o que a administração não assumia e quem se lixava era eu. Uns anos depois e já com a hipótese da ida do pessoal de escritório, para junto da fábrica, no Carregado, falaram-me que iria ficar responsável pelas duas contabilidades, pois a Odete iria para directora financeira. Afinal eu já fazia todo o trabalho dela, com a introdução dos computadores os meus mapas de metros de comprimento e quase outros tantos de largura, passaram a meia dúzia de folhas impressas. O que tornou o meu tempo disponível para fazer tudo o que ela fazia antes, desde coisas simples, às que eram o segredo dos deuses. Foi decidido pela administração que a partida para o Carregado seria em Junho de 1996, no entanto, em 1995 foi a secção da Rita, como cobaia, para dar o exemplo. A mulher de um colega estava grávida e desmaiou no metro quando ia para o trabalho, ele foi informado da situação e que ela estava internada, por volta das 10 horas, pediu a tudo a todos para que o levassem a Vila Franca de Xira para apanhar o comboio para Lisboa para estar com a mulher, apenas à hora do almoço, um colega se disponibilizou por especial favor, para o levar ao comboio, só quase a o final da tarde se encontrou com a mulher. Toda esta situação fez-me imensa confusão devido à situação dos meus pais, ele com Parkinson e a minha mãe com problemas de coração, de tensões altíssimas, e ambos com problemas nos ossos. O que fazer? O Victor disse-me para fazer o que achasse melhor. E eu, o que fazer? Chegámos a 1996 e recebemos uma circular da administração confirmando a transferência a partir de Abril e até Junho, todos estaríamos no Carregado. Fui ao sindicato expus a situação e perguntei o que me aconselhavam, o advogado aconselhou-me a escrever uma carta à administração expondo a minha situação familiar informando que não iria, e depois, que aguardasse a resposta. Assim fiz. Decorria o mês de Fevereiro, em que já era necessário trabalhar ao sábado para o fecho de contas, quando eu ia sair para almoçar, sai-me ao caminho a maria Arminda que com um sorriso sarcástico me diz – recebemos uma carta sua, mas aquilo não é verdade, pois não? A Antonieta não nos vai deixar?! Ao que eu respondi que sim, ia deixá-los pelos motivos apresentados na carta. Com o mesmo sorriso sarcástico ela diz-me – a Antonieta fica, nós damos-lhe 500 contos e o papel para o fundo de desemprego, daqui a dois anos os seus pais já morreram, e nós damos-lhe de novo o seu trabalho lá. Foi a gota de água, nesse sábado já não voltei, durante a semana não fiquei depois do horário normal, resumindo, houve uma reunião com todos os engenheiros, a Odete, o director contabilístico, a administração e eu, para me pedirem que cumprisse os prazos para que pudesse ser feito o fecho de contas a tempo e horas. Por dentro ria de prazer, mas muito séria e selecta, disse que sim, não havia qualquer problema. E não houve, apenas e só, fiz o meu trabalho, a contabilidade industrial. No dia 10 de Abril, dia que o advogado do sindicato tinha dito como ultimo após a data da carta, despedi-me de todos os engenheiros, com quem sempre tive um relacionamento profissional cinco estrelas, despedi-me do director e da Odete. Foi muito bonito saber que iria fazer falta para algumas pessoas. Profissionalmente sempre fui considerada muito boa profissional, “pau para toda a obra”. Ultima derrota, ou talvez, primeira vitória. Ao fim de trinta e dois anos deixei de ser eu. Deixei de ser a brincalhona do principio, a amiga, a confidente, a explicadora, a companheira, a superiora que elas não aceitaram porque não foram informadas por quem de direito, que o era. No entanto, todas saíram no mesmo dia que eu. Na secção ficou apenas a Odete e a Amália que tinha entrado à pouco tempo. Trinta e dois anos, uma vida! Maria Antonieta Bastos Alentado 27-04-2017