Ontem, hoje e amanhã!

Retratos do dia a dia!

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Eu e o Trabalho

Como já disse atrás, acabei o curso com apenas 16 anos, em 1964, e de imediato fui trabalhar para o escritório da empresa CIPAN. Uma empresa com apenas quatro meses de actividade. Fui para a secção da contabilidade industrial, onde era calculado o custo do produto (antibióticos) à saída da fábrica. A Célia era a chefe, depois havia a Teresa e entrei eu. Quem orientava e direcionava toda a contabilidade industrial e geral, era o Dr. Matos (Manuel Maria de Matos), durante dois anos e em relação à CIPAN - Lisboa, também foi ele quem orientava a tesouraria, os armazéns e a secção de controle. Na minha secção o trabalho era dividido consoante o Dr, nos dizia. A Célia casou em Outubro desse mesmo ano e em Novembro saiu da empresa, ficando apenas eu e a Teresa na contabilidade industrial e numa sala só para nós. A partir daí foi a mim que o Dr. deu poderes e ensinou tudo o que passou a ser o custeio industrial, passei a ter comigo duas pessoas a trabalhar, a Teresa e a Graciete que entretanto entrou. Como era hábito da firma após os três meses de experiência, se a pessoa ficasse ao serviço recebia um aumento de 250,00 $, passei então a ganhar 1250,00 $, muito bom para a época. Aproximou-se Janeiro mês em que invariavelmente havia aumentos para todo o pessoal, passei a receber 1680,00 $, o que irritou a Rita, chefe da secção de controle, e que não estava a gostar da minha ascensão, pois tinha ciúmes do Dr. Matos , pensado ela que eu e ele tínhamos algo mais que trabalho, ela queria-o para amante, pois o senhor era casado e pai de filhos, ela era já considerada solteirona, mas para além disso, também só queria alguém que lhe desse poder e estabilidade dentro da empresa. O meu nome foi falado na administração por em tão pouco tempo já estar com o mesmo ordenado da pessoa da secção dela, com mais tempo na casa, e em quem ela confiava o trabalho. Primeira derrota. Ao longo dos anos e muito mais depois do falecimento do Dr. Matos em Maio de 1970, passei a ter todo o poder sobre a contabilidade industrial, pois mais ninguém sabia fazer os mapas até chegar ao custo final da cada produto fabricado, que também ao longo dos anos foram aumentando. A contabilidade geral (Odete) não podia fazer o fecho de contas sem que eu tivesse acabado o chamado custeio anual, para que a secção de controle (Rita) fizesse a avaliação das existências. Fiz muitos serões, muitos sábados de trabalho, trouxe muito trabalho para casa, passando fins-de-semana a trabalhar até às quatro/cinco da manhã, sem qualquer remuneração extra. Também nunca me dificultaram a vida sempre que quis fazer ponte ou faltar fosse para o que fosse, apenas tinha que preencher o papel em que dizia que a falta /s já estava compensada. Havia também o chamado saco azul, que a partir de um determinado ano, que já não me recordo qual, passei a fazer parte, recebendo pela Páscoa uma verba muito superior ao valor que receberia se tivesse exigido horas extras. O meu relacionamento com as colegas de secção, que já há muitos anos, era uma só secção onde a Odete orientava a contabilidade geral, e eu a contabilidade industrial, era bom, por vezes até muito bom, desde que a Odete não faltasse, pois quando isso acontecia, era eu quem assumia as duas funções, e aí, começava a revolta e incompreensão do porquê de ser eu e não uma delas, Falei-lhes dizendo que não tinha culpa que me chamassem a mim quer fosse para orientar, quer para as reuniões com a administração, coisa que eu estava habituada, mas relacionadas com a “minha” contabilidade. Enfim, instalava-se um mau estar geral e quando eu saia era um corte de casaca que até chateava. Tudo isto me enervava, pois não queria que assim fosse, mas a administração também não queria proceder de outro modo, para que eu não pudesse exigir outras condições e regalias, e eu aguentava, mas o meu sistema nervoso dava logo sinal, em casa todos davam por isso, eu dizia o que se passava mas também ninguém compreendia. Houve um ano em que a Odete “resolveu” faltar seis meses seguidos precisamente na altura do fecho de contas, fui eu que assumi as duas contabilidades e consegui que tudo corresse bem e fechasse-mos a tempo e horas. Nesse ano recebi no tal envelope secreto 320.000$00, muito dinheiro para aquela época. o ambiente na secção foi de trombas, mas todas colaboraram fazendo o trabalho que lhes competia. Houve uma ocasião em que fui informada que iria assumir a minha função e também a da Rita, ficando responsável pela secção dela. Pensei, falei em casa e resolvi que aceitaria pois sabia o que conseguiria. No dia D a Maria Arminda (administradora) chamou-me e chamou-a a ela, antes de ir ela disse-me que não iria aceitar sair, e que portanto tudo ficaria na mesma, de qualquer modo iriamos ao gabinete da administradora. Ela entrou primeiro, enquanto eu esperava no corredor, passou o patrão (Sebastião Alves) que me convidou a entrar no gabinete dele, aí deu-me os parabéns, de finalmente ir ter um lugar de acordo com as minhas competências, etc. etc. deu-me toda a força possível, e eu a saber o que a Rita estaria a falar com a outra, de seguida fomos para o corredor e como a porta da Maria Arminda já estava aberta, entrámos, então a madame disse-me o que eu já sabia, enquanto ela falava eu olhei para o patrão, ele quase envergonhado, encolheu os ombros, como quem diz, não sei o que fazer, é que após o 25 de Abril de 1974, quando ele fugiu para o Brasil passou-lhe uma procuração, que ela possuiu até ao fim deles como administradores, portanto, quem mandava era ela, e por sua vez, a vontade da Rita imperava porque tinha muitos truques na manga, inclusive, já tinha conseguido casar com o ex-cunhado do patrão, que se divorciou depois de se ter descoberto o romance dele com a dita Rita. Mais uma derrota. Fora da secção ninguém compreendia porque é que eu nunca mais passava dali, todos sabiam das minhas capacidades. Na secção todas me invejavam, até pela forma como os engenheiros ou o TOC me cumprimentavam e falavam, afinal era comigo que tudo era tratado e falado, mas enfim, passei dias muito difíceis e complicados. Ninguém dos superiores queria assumir o que a administração não assumia e quem se lixava era eu. Uns anos depois e já com a hipótese da ida do pessoal de escritório, para junto da fábrica, no Carregado, falaram-me que iria ficar responsável pelas duas contabilidades, pois a Odete iria para directora financeira. Afinal eu já fazia todo o trabalho dela, com a introdução dos computadores os meus mapas de metros de comprimento e quase outros tantos de largura, passaram a meia dúzia de folhas impressas. O que tornou o meu tempo disponível para fazer tudo o que ela fazia antes, desde coisas simples, às que eram o segredo dos deuses. Foi decidido pela administração que a partida para o Carregado seria em Junho de 1996, no entanto, em 1995 foi a secção da Rita, como cobaia, para dar o exemplo. A mulher de um colega estava grávida e desmaiou no metro quando ia para o trabalho, ele foi informado da situação e que ela estava internada, por volta das 10 horas, pediu a tudo a todos para que o levassem a Vila Franca de Xira para apanhar o comboio para Lisboa para estar com a mulher, apenas à hora do almoço, um colega se disponibilizou por especial favor, para o levar ao comboio, só quase a o final da tarde se encontrou com a mulher. Toda esta situação fez-me imensa confusão devido à situação dos meus pais, ele com Parkinson e a minha mãe com problemas de coração, de tensões altíssimas, e ambos com problemas nos ossos. O que fazer? O Victor disse-me para fazer o que achasse melhor. E eu, o que fazer? Chegámos a 1996 e recebemos uma circular da administração confirmando a transferência a partir de Abril e até Junho, todos estaríamos no Carregado. Fui ao sindicato expus a situação e perguntei o que me aconselhavam, o advogado aconselhou-me a escrever uma carta à administração expondo a minha situação familiar informando que não iria, e depois, que aguardasse a resposta. Assim fiz. Decorria o mês de Fevereiro, em que já era necessário trabalhar ao sábado para o fecho de contas, quando eu ia sair para almoçar, sai-me ao caminho a maria Arminda que com um sorriso sarcástico me diz – recebemos uma carta sua, mas aquilo não é verdade, pois não? A Antonieta não nos vai deixar?! Ao que eu respondi que sim, ia deixá-los pelos motivos apresentados na carta. Com o mesmo sorriso sarcástico ela diz-me – a Antonieta fica, nós damos-lhe 500 contos e o papel para o fundo de desemprego, daqui a dois anos os seus pais já morreram, e nós damos-lhe de novo o seu trabalho lá. Foi a gota de água, nesse sábado já não voltei, durante a semana não fiquei depois do horário normal, resumindo, houve uma reunião com todos os engenheiros, a Odete, o director contabilístico, a administração e eu, para me pedirem que cumprisse os prazos para que pudesse ser feito o fecho de contas a tempo e horas. Por dentro ria de prazer, mas muito séria e selecta, disse que sim, não havia qualquer problema. E não houve, apenas e só, fiz o meu trabalho, a contabilidade industrial. No dia 10 de Abril, dia que o advogado do sindicato tinha dito como ultimo após a data da carta, despedi-me de todos os engenheiros, com quem sempre tive um relacionamento profissional cinco estrelas, despedi-me do director e da Odete. Foi muito bonito saber que iria fazer falta para algumas pessoas. Profissionalmente sempre fui considerada muito boa profissional, “pau para toda a obra”. Ultima derrota, ou talvez, primeira vitória. Ao fim de trinta e dois anos deixei de ser eu. Deixei de ser a brincalhona do principio, a amiga, a confidente, a explicadora, a companheira, a superiora que elas não aceitaram porque não foram informadas por quem de direito, que o era. No entanto, todas saíram no mesmo dia que eu. Na secção ficou apenas a Odete e a Amália que tinha entrado à pouco tempo. Trinta e dois anos, uma vida! Maria Antonieta Bastos Alentado 27-04-2017

sábado, 22 de abril de 2017

Com ou Sem Mãe 2

Foi mais ou menos nessa altura que nos começamos a dar com outros casais, todos sem filhos e alguns ainda solteiros. Juntávamo-nos aos sábados ao final do dia e por vezes só regressávamos a casa na madrugada do dia seguinte. Íamos para casa uns dos outros e aí ficávamos a contar anedotas, a jogar o monopólio, a jogar às cartas, bebendo e petiscando na maioria das vezes punhetas de bacalhau. A Carla acompanhava-nos na maioria das vezes, adormecendo na cama do casal aonde estávamos ou ao meu colo, ficando assim o serão inteiro. Mas era bom, eram pessoas com quem se podia conversar e com quem até se podia aprender alguma coisa. Depois uns foram pais, outros foram viver para as respectivas terras e tudo acabou. Deu-se o 25 de Abril de 1974 e de seguida e por consequência os senhorios resolveram querer vender as casas, o nosso senhorio pediu 600 contos, o senhorio dos meus pais pediu 200 contos, não hesitámos na compra, por concordância dos meus pais, pois em 1967 o meu pai tinha estado um mês a trabalhar em Paris e ganhou 30.000 escudos, uma fortuna para a altura, com esse dinheiro comprou em 1971, um terreno num local distante e praticamente deserto, em Casal de Cambra, e há muito falavam em construir lá uma casa. Começaram então a construção com ajuda de amigos do meu pai, e também com a ajuda do patrão que lhe cedeu alguns materiais gratuitamente. Nós voltámos para a rua de Gôa, pois era incomportável pagar a renda da casa e o empréstimo feito à caixa geral de depósito, única entidade bancária que na altura concedia empréstimos sobre imóveis. O ambiente entre todos era um pouco pesado, a minha mãe já não se sentia bem naquela casa, por sua vez, eu, também não me sentia bem, parecia que a casa não era de ninguém mas que todos lá tínhamos de viver. Em 1976 já não sei bem em que mês, cada um passou a viver na sua casa. Fizemos um quarto para a Carla e a partir daí começou a dormir no seu quartinho. O pior, eram as manhãs e depois as noites quando íamos levar e buscar a Carla à avó Chica, em que o choro era constante pois queria-nos todos juntos como antes. Ela sofria, eu sofria e a avó sofria. Uma tarde de sábado eu e o Victor falamos na hipótese de fazermos um primeiro andar na casa dos meus pais e assim resolveríamos a situação de todos. Mas para isso tínhamos que falar com eles, e consoante o que dissessem assim faríamos. No domingo a seguir fomos lá almoçar e falei sobre o assunto, o meu de imediato disse que sim, a minha mãe calou, ela sabia, depois acabou por concordar, na condição de que o meu tio João continuaria a dormir lá em cima, o meu pai tinha feito um quarto para ele no sótão. Claro que concordei, sempre gostei muito desse meu tio. A obra começou, também os amigos do Victor o ajudaram, e ele depois do trabalho na oficina vinha para aqui fazer tudo o que era possível fazer. Em pouco mais de seis meses a casa estava pronta, ampliamos com a feitura da garagem e sobrepondo-lhe a cozinha. Mudamo-nos no primeiro dia de Julho de 1978. Entretanto a casa da rua de Gôa foi vendida ao cunhado do senhor Silvestre, o merceeiro de há muitos anos, pagamos a dívida à CGD e o restante ajudou na construção desta casa. O Victor pediu algum dinheiro em nome da oficina, pois os juros eram mais baixos e deu para tudo. Esse valor foi pago pela oficina. A parte emocional de todos nós parecia ter voltado ao normal. No dia do quinto aniversário da Carla estiveram presentes os amigos do Victor que ajudaram e como de costume a família e alguns amigos nossos, para além das amiguinhas da Carla que lancharam juntas. Foi uma inauguração muito boa, um dia alegre e com boa disposição entre todos. Pusemos a Carla na pré-primária no colégio Grão Vasco, a ideia foi minha, queria que ela começasse a ter contacto com outras crianças para além das poucas aqui da rua, para além de querer dar um pouco mais de descanso à minha mãe. Ela detestou a ideia, ainda hoje me recrimina por o ter feito. Andou lá até à quarta classe, passando depois para a escola preparatória da quinta dos Castanheiros em Caneças. Sempre que o horário dava íamos levá-la antes de seguirmos para o trabalho, quando não ia de camioneta, tal como vinha. Os serões na oficina voltaram, por vezes até bastante tarde, eu esperava em vez de agarrar no carro e vir embora. Ele dizia-me para o fazer, mas eu sabia que o serão seria mais longo, pois entretanto os “amigos” iriam aparecer para os copos. E eu sabia bem como era a condução dele, e também o mau feitio com que ficava nessas ocasiões. Preferia sacrificar-me pela saúde dele e também pela boa harmonia. Porquê? Não sei! De novo a pena, a protecção, como se fosse mãe dele ou irmã mais velha. Talvez! Entretanto em 1980 comprámos um terreno na charneca da Caparica. Começamos por fazer uma garagem, a seguir uma casa de banho e uma pequena cozinha, aos poucos foi surgindo uma casa de primeiro andar. O dinheiro ia surgindo de trocas de carros comprados com empréstimo e depois vendidos a pronto, para além de outros empréstimos feitos em novo da oficina, com o trabalho do Victor tudo foi pago. Mas, quem pagava tudo o resto, alimentação, água, luz, gás, escola da Carla, roupa e calçado para todos, era eu com o meu ordenado. Os fins-de-semana sempre passados lá com homens a trabalhar e a beber, foram fazendo vir ao de cima os meus problemas nervosos, começados quando ainda vivia na casa da minha madrinha, em que um dia desmaiei, e ela me levou ao médico dela, que tinha o consultório no canto direito da igreja da Madalena, e já não recordo o que me fez mas chegou à conclusão que eu tinha o sistema nervoso muito frágil. As depressões começaram e o meu mau feitio surgiu, passando a não poder ver quase ninguém. A minha mãe foi uma das minhas vítimas, mal ela subia as escadas já eu estava de trombas. Também era um pouco culpada do meu mal estar, pois era raro odia em que mal eu entrava em casa ela não me fizesse queixas da neta, sobre coisas que só ela no momento em que aconteciam o podia resolver. Era difícil. Muito difícil. Depois da casa pronta, passou a ser estalagem para todos, aos fins-de-semana toda a gente, família e sem ser, apareciam lá para comer e beber à borla, excepto a minha prima Liete e o marido que sempre pagaram o que comeram. Com esses passei férias felizes, dávamo-nos muito bem, passeámos por Portugal de norte a sul e sempre correu tudo bem. Saudades deles, meu Deus. Voltando aos outros, havia um casal que se dava ao luxo de telefonar para lá, pois eu mandei lá pôr um telefone para poder telefonar à minha mãe todos os dias, como sempre fiz até ao último dia do meu pai com vida, que partiu sete anos depois dela. Então telefonavam e diziam “ amanhã, comprem sardinhas a contar connosco, que nós vamos à praia e depois vamos almoçar aí”. Outro levava a família quase toda e pagava com um doce ou um bolo para a sobremesa. E no fim íamos todos ao café da dona Beatriz, e quem pagava os cafés e os extras era o Victor. Enfim. Entretanto a Carla casara em 1991, a partir daí também os amigos dela e dele e respectivos namorados passaram a ir para lá, até aí tudo bem, o pior foi quando descobrimos que o meu genro, tinha emprestado as chaves que a Carla tinha, a um amigo que fez cópias e durante a semana a casa passou a ser uma casa de encontros amorosos. Foi a minha mãe que nos alertou, dizendo que aqui já se falava que a minha casa era uma casa de putas, não me disse quem lhe falara no assunto, mas só podia ter sido a mãe de uma miúda aqui da rua que também ia para lá. Fui eu quem falou com eles, filha e genro, desmentiram, e tudo ficou assim. Passei a ter nojo da casa, não sabia quem lá tinha andado e onde tinha mexido. Cheguei a um ponto que já não aguentei mais. As discussões eram constantes, no entanto para todos, nós eramos um casal feliz. Ele também se cansou de tudo isto e um dia no café disse que se encontrasse quem quisesse comprar a casa a vendia de imediato, mal o disse e já havia um comprador, o cunhado do vizinho do lado, e assim no final de 1999 a casa foi considerada vendida embora só se fizesse a escritura já em 2000. Maria Antonieta Bastos Alentado 22-04-2017

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Eu Com e Sem a Minha Mãe

EU COM E SEM A MINHA MÃE Estava casada sim, e estava libertada?! Não! Falei que queria tirar o curso de contabilista e iria fazê-lo à noite, para não prejudicar o emprego, disse-me logo que não acava necessário, pois eu até ganhava bem, e que desistisse da ideia. Mais uma vez fracassei e não lutei. Já o tinha feito anteriormente pelo mesmo motivo, com a minha mãe. Nas vésperas de casarmos ele deu-me 8000$00 para guardar, era o dinheiro que tinha, assim fiz. O meu ordenado também passou a ser orientado por mim, pagando metade da renda da casa, metade da água, metade da luz e do gás, metade da taxa da tv, metade do telefone e também metade da alimentação, portanto metade de tudo, imposição da minha mãe e com a qual concordei, ela não tinha obrigação de me continuar a sustentar se já não recebia o meu ordenado. Ele estava no Entroncamento, a tirar a especialidade, vinha ao fim-de-semana a casa e levava comer feito para a semana toda, a meio da semana escrevíamos uma carta um ao outro, a confiança que eu tinha na minha mãe era tanta, que criamos códigos para que mesmo que ela abrisse as cartas não percebesse a conversa. Aos fins-de-semana sempre que tinha trabalho, fazia-o e assim ia tendo dinheiro para os extras na tropa. Veio depois para Campolide onde ficou o restante tempo perfazendo trinta e seis meses de tropa. Como era casado vinha dormir a casa todos os dias, também como casado tinha direito a uma determinada verba, mas como dava trabalho ia tratar disso, não tratou e nada recebeu. Também aí levava todos os dias o almoço de casa, soube há bem pouco tempo que normalmente o dava a outros e ele ia comer num restaurante perto do quartel. Ele trabalhava ao fim-de-semana e eu continuava a arcar com todas as despesas. Por graça ia juntando os míseros escudos que ele como soldado raso ia ganhando, até já ter uma verba mais ou menos jeitosa que serviu para ele tirar a carta de condução, e aí, os 8000$00 que me tinha dado a guardar, foi para a entrada do primeiro carro que tivemos, um Ford 12 M , que tinha sido do senhor António, o dono do pequeno lugar em Benfica onde o meu pai parava, ficamos a dever 7000$00, começou a nossa guerra e as nossas dívidas por causa dos carros. No quartel as tardes eram passadas no jogo e na bebida, pelo que muitos dias chegou bêbado a casa. Numa brincadeira no quartel partiu a rotula direita, esteve um mês engessado e supostamente internado no hospital militar na rua da Artilharia 1, mas como um dos porteiros era da Damaia e já se conheciam, a troco de vinho, todos os dias saia e ia dormir a casa. No outro dia lá ia de novo de táxi, para estar no quartel à hora da revista. Houve uma noite em que nunca mais chegava a casa, eu já pensava que ele tinha tido um acidente com o carro, até que apareceu com o tal de Marinho, o porteiro do hospital, não sei qual dos dois estava mais bêbado, riam e falavam alto, e a hora já era bem tardia, a minha mãe claro está, que já estava há muito tempo deitada, ele começou a desconversar, como sempre fazia quando não estava sóbrio, começou a dizer que a minha mãe tinha vergonha dele e abriu a janela dizendo que ia atirar tudo pela janela, assustada fui pedir à minha mãe que se levantasse e fingisse vir da casa de banho e os fosse cumprimentar, ela coitada, assim fez e ele acalmou. Ao fim de um tempo o outro foi-se embora e consegui convence-lo a ir-se deitar. Hoje penso porque consenti que isto acontecesse, do que tinha medo? Mas tinha, tinha medo que ele se tornasse agressivo. No outro dia já tudo tinha passado, até uma próxima. Foi assim todo o tempo em que esteve na tropa. Entretanto ele já tinha uma outra oficina e um sócio, que era trabalhador no hospital de Santa Maria, continuava sem me dar dinheiro, pois tinha começado tudo de novo e a oficina não tinha dinheiro. Entretanto engravidei, de comum acordo, já íamos fazer quatro anos de casados e ele já tinha saído da tropa. Quando fui saber o resultado da análise que confirmou a gravidez, foia a minha mãe comigo, ao dizer-lhe que ia ser avó, respondeu-me com um ar sério – não sei se fico alegre ou triste. Nada mais disse. Fui a todas as consultas quase sempre com a minha mãe, ele tinha que trabalhar, não tinha tempo, até aquele sábado de Agosto em que durante a noite me levantei várias vezes com dores, mas como as águas não tinham rebentado, pensava não ser ainda, pelas contas da médica ainda faltava uma semana. Ele ia trabalhar mas como as dores apertavam pedi-lhe para me levar à ginecologista que em assistia, na caixa, era assim que se dizia na altura, que ao me ver de imediato disse para irmos depressa pois já tinha a dilatação quase toda feita. Fomos, eu, ele e a minha mãe. Pouco tempo depois de chegarmos à associação no largo do Caldas, a Carla nasceu, mas já aí me fez sofrer, pois tiveram que voltar a meter a cabeça para dentro, que ela vinha torcida. Estive cinco dias internada, e todos os dias tive a visita da minha mãe que me levava o almoço, e dele que me levava o jantar e ficava a dormir. Foi um ano em que o mês de Agosto foi abrasador e não havia ar condicionado, mas passou-se. Foi-me dito que deveria sair na quinta-feira, a minha mãe como de costume lá estava à hora de almoço, e foi-me dada alta, telefonei-lhe para nos ir buscar, mas não foi, não pode, tinha muito trabalho. Eu fui para uma esquina com a Carla ao colo, a minha mãe foi para outra com o saco da menina e o outro saco com as minhas coisas, para ver qual de nós arranjava primeiro um táxi que nos levasse à Damaia. Já não me recordo bem, mas penso que fui quem o arranjou primeiro, mas isso foi secundário, felizmente chegámos a casa. A minha mãe deu-me todo o apoio logístico necessário, ajudando-me nos biberons, nas fraldas, depois nas papas, nas sopas, e por aí fora, pois após dois meses acabou a baixa de parto e fui trabalhar. Só num ponto nunca me ajudou e avisou logo no primeiro dia, nunca deu banho à neta. Quando eu chegava a casa até me dava prazer fazê-lo. Foi nessa altura que compramos uma máquina de lavar roupa, pois ainda não se usavam as fraldas descartáveis, pagamos a meias, eu e a minha mãe, mas com a condição de que quando saíssemos dali a máquina ficava. Tal já tinha acontecido quando no princípio de casados compramos o esquentador. E assim foi. Começamos nessa altura à procura de casa, ainda pensamos em comprar, mas ficávamos com uma renda incomportável, pelo que decidimos mesmo alugar. Encontramos um rés-do-chão optimo na Damaia de Cima, a renda era 3200$00, era eu quem a pagava, para além de continuar as despesas que a minha mãe fizesse com a alimentação da neta, ou quando nós lá jantávamos. Mais uma etapa. Fui mãe. Maria Antonieta Bastos Alentado 19-04-2017

Eu e a Minha Mãe 3

A vida profissional ia bem, muito embora não tivesse continuado a estudar tal como eu queria, mas mais uma vez fui impedida pela minha mãe, pois teria que o fazer à noite e isso não era compatível com a minha qualidade de “menina”. Mas pronto, tive a sorte de ter ficado logo responsável pela contabilidade industrial da firma em que trabalhei durante trinta e dois anos. Já lá chegaremos. O meu tempo voltou a ser só à janela, onde tinha vários candidatos, uns apenas passavam e olhavam, outros ficavam também à janela e iam olhando de vez em quando. Também no emprego tinha dois admiradores, mas para mim nenhum era igual ao que ainda fazia bater o meu coração. Aproximava-se o dia do meu 19º aniversário e pedi à minha mãe se podia fazer uma festa com as colegas de trabalho e os primos e primas, ela acedeu. Eu tinha um gira-discos, o Victor tinha um leitor de cassetes, e o Zé Manuel, meu colega levou também os discos que tinha, assim reuni à volta de 15 pessoas. A minha mãe esteve sempre presente, muito embora as minhas tias também lá estivessem. Dançou-se e ao som de Roberto Carlos, tanto o Zé como o Victor, pediram-me namoro. Disse não a ambos. O dia acabou e tudo ficou na mesma. Não sei exactamente em que mês o meu primo Manuel Artur foi lá a casa e levou uma agenda onde o Victor escrevia quadras destinadas a mim, em que demonstrava todo o seu sofrimento por não conseguir que eu lhe aceitasse namoro. Chorei ao ler tudo aquilo, era deveras sentido, livra. Mas não, eu não gostava dele para namorar, além disso, também me lembrava de o meu pai me ter pedido que quando voltasse a namorar fosse com um sujeito que já tivesse cumprido a tropa, e ele nem sequer ainda lá estava. Também me lembrava, mas aí já nada podia fazer, que um dia a minha madrinha ao saber que o Victor gostava de mim, pois no dia do casamento do irmão Jorge embebedou-se por causa de eu não querer dançar com ele, me disse – não o queiras, é feio, quer antes o Ângelo que é mais bonito. Pois é, mas esse já podia ser meu. Por outro lado a minha mãe também não queria que eu namorasse com ele por ele ter o feitio do pai, era agressivo e mal educado, tudo isto ela tinha presenciado naqueles meses em moramos todos juntos. Enfim, estava num beco sem saída, tinha pena dele, também por saber que já tinha saído de casa e vivia na cave da oficina onde trabalhava com o irmão Jorge. Não tinha qualquer apoio da mãe, nem de ninguém, precisava de carinho de alguém, a minha cabeça não parava, mas sabia que não o amava. Em Novembro desse ano, ele e os amigos fizeram um baile na garagem da casa dos pais, a minha tia pediu à minha mãe para me deixar lá ir, ela acedeu mas foi comigo. O Victor voltou ao assunto, eu não respondi. A minha vida em casa era uma monotonia, pouco saia, já nem com a Liete, pois ela tinha namorado e eu não. falei com ela e pedi-lhe opinião sobre o que havia de fazer, ela disse que achava que ele era boa pessoa, que tinha mudado e era apaixonado por mim, a opinião dela era que aceitasse e depois logo veria se dava ou não. Foi o que fiz, aceitei, mas sabia que não o amava. Era a única certeza que tinha. Dois meses depois ele quis tornar o namoro oficial e falou com o meu pai, que de imediato disse não. a minha mãe que já se apercebido do namoro, já me tinha proibido de o cumprimentar com um beijo (na cara), que era assim que cumprimentava todos os primos, aí eu reagi pela primeira vez e não fiz o que me pediu. Uns dias depois o Victor voltou a falar com o meu pai que voltou a dizer que queria que a filha fosse feliz, e não queria que começasse já a namorar, mas ele subiu as escadas com o tio, meu pai, e ficou quase todo o serão lá em casa. A partir daí foi tudo oficial. Era presença diária ao serão, nessa altura já tínhamos ido buscar à Vidigueira, a minha avó Maria e o tio João, então, quando se aproximava a hora dele chegar a minha mãe dizia ao meu tio para ir acender a televisão e levar a minha avó para a sala, portanto o namoro foi sempre bem acompanhado. Não podíamos sair sozinhos para lado nenhum, tal como já tinha sido anteriormente. Tudo era controlado. Se eu era feliz? Não, não era, nem os beijos tinham o mesmo sabor, nada me fazia borbulhas na barriga, nada era como já tinha sido. Amava-o? Não sabia, mas sabia que não era amor o que sentia. O tempo passava e a Liete ia casar, ora bem, era apenas com ela e o Jorge que a minha mãe me deixava sair, porque também ia a irmã Rosa, qua ainda não namorava. Depois de casada se calhar já não queria andar connosco, ele ia entrar para a tropa, o irmão Jorge já lhe tinha dito que quando fosse para o quartel, precisava do espaço onde ele tinha um divã e um roupeiro, tudo isto martelava a minha cabeça, o que fazer? Ele queria casar, e eu o que queria?! Não sabia, deixei de saber o que fazer, só sabi que queria sair da prisão em que vivia desde que nascera. Até o meu ordenado era entregue por inteiro à minha mãe, ela depois dava-me uns escuditos para uns bolitos ou gelados, nada mais que isso. Fizera vinte e um anos, era considerada maior, mas tudo continuava na mesma, sem poder ter decisão própria, ou fazer algo sem a mãe atrás. Resolvi que iria aceitar casar, mas, os meus pais não me autorizavam a fazê-lo. Pois, mas já era de maior idade, o destino, e eu acredito no destino, fez com que dissesse que mesmo sem eles quererem iriamos casar e viver num quarto alugado. Foi aí que a minha mãe se apercebeu que já não mandava em mim, então, decidiu que casaríamos e ficávamos a viver lá em casa. Assim foi, e no final de 1969 casei. Por amor? Não! por pena e por necessidade de me libertar da prisão que era a minha mãe. Maria Antonieta Bastos Alentado 19-04-2017

Eu e a Minha Mãe 2

As férias grandes eram um suplicio, tantos dias fechada em casa vendo apenas, para além da minha mãe, e do meu pai que invariavelmente estava bêbado, embora não fosse agressivo, pois até lhe dava para brincar, rir e dormir, mas também não dava para conversar, como dizia, apenas via quem passava na rua, da única janela a que tinha acesso, a do quarto da minha mãe, pois a outra que dava para a rua era a do quarto da senhora Maria. Entretanto o meu primo Jorge foi para a tropa e a minha mãe mudou o seu quarto para onde era a sala e vice-versa, passando eu a dormir no divã onde antes o meu primo dormia. Foi a primeira vez que não dormi no quarto dos meus pais. Mas tinha medo, sentia o medo que outrora tinha sentido quando à noite atravessava o corredor na casa da madrinha, entre a cozinha e a sala dela. Aí passei bons momentos à janela com ela, a ver as marchas, as procissões e até as noivas de Santo António, pois as janelas davam par o largo de Santo António onde fica a respectiva igreja. Também ouvíamos os passarinhos a regressar às árvores, ao anoitecer. E víamos as varinas regressando da venda com a canastra à cabeça, gritando o pregão para venderem o que restava. E o homem dos caracóis, ou o aguadeiro a vender as bilhas de água das fontes de Caneças. E a mulher da fava-rica ou o amolador, tudo dava para desanuviar e ajudar a passar o tempo. Voltando às férias grandes, a Querida, assim chamei a mãe da minha madrinha até ao seu último dia na terra, um ou dois anos, deu-me um lençol branco para bordar a ponto de cruz ou a ponto corrido, mas o pior é que eu não tinha jeito para bordar, o que tornava complicado ter que cumprir esse dever, mas lá ia fazendo tentando acabar até ao final das férias. À parte isso, nada mais fazia, a minha mãe fazia tudo, com ela nada aprendi, nem sequer a cozer umas batatas ou estrelar um ovo. Passava os dias da cozinha para a janela e da janela para a cozinha, a minha mãe chateava-se e dizia que eu parecia um passarão desconado, não gostava que ela me chamasse assim, mas não reagia, pois se o fizesse arranjava mais uma tareia, e já bastavam as que levava porque fazia e porque não fazia, tudo era motivo para me bater. Também às vezes quando estava mesmo muito zangada dizia que quando eu nasci devia ter nascido um saco de lacraus, ficava triste ao ouvir isto, mas calava. Por outro lado em menina, dava-me beijinhos e carinho e chamava-me de “minha menina de prata e ouro”, ao fim e ao cabo a minha mãe também era uma vítima da vida que tinha levado, pois ficou sem pai apenas com nove meses de idade, teve que crescer antes do tempo. Mas eu não tinha culpa. O meu namoro com o tal miúdo de olhos bonitos, continuou contra a vontade da minha mãe e, pensava eu, sem que ela soubesse. Quando acabaram as férias liguei para ele, que era trabalhador estudante, dizendo-lhe o meu horário escolar para que ele pudesse aparecer e nos voltássemos a ver. Assim aconteceu e aos sábados, por vezes ele aparecia. Num sábado em que íamos apenas lado a lado, surge a minha mãe por detrás de nós, deixando-me em pânico, mas vá lá desta vez não me bateu, apenas falou com ele dizendo que não queria que ele voltasse ali pois não queria que eu namorasse, por ser muito nova. Este episódio ficou por aqui. Nós continuamos o que nunca acabámos. Houve mais uma ou outra vez em que até as minhas colegas me avisavam que a minha mãe estava escondida nas escadas por aonde eu passava, entre a escola e o electrico, mas nunca mais houve desacato como da primeira vez no Rossio. Numas férias grandes fomos passar uns dias a Moura, para casa do meu tio Carvoeiras, o Ângelo, assim se chama o miúdo de olhos bonitos, resolveu escrever-me uma carta, pondo o nome e toda a conversa no interior da carta, no feminino, mesmo assim a minha mãe disse logo que a carta não era de nenhuma colega Ângela mas sim dele. O meu tio mais liberal, e tinha duas filhas, não ligou nenhuma ao assunto. Em 1964 acabei o tal curso geral do comércio, fiz o último exame no dia 31 de Julho e mesmo nesse dia, o meu pai disse-me que se quisesse começar a trabalhar já tinha que ir no dia seguinte ter com um senhor para o qual ele tinha trabalhado no quintal, como calceteiro, mas se quisesse ter as férias normais e só começar a trabalhar em Outubro, era comigo. Claro que decidi começar a trabalhar de imediato, assim sendo no dia 10 de Agosto iniciei a minha vida profissional. A minha mãe e eu continuámos a não saber dialogar, nem sequer havia uma tentativa para que existisse qualquer tipo de conversa sobre que assunto fosse. A senhora Maria e família continuavam morando na nossa casa, um irmão da senhora Maria casou-se com uma miúda muito simpática, com quem me dava muito bem, havia empatia entre nós. Um dia ela emprestou-me um livro que se chama “A Higiene Intima da Mulher”, escrito pelo médico Dr. Ramiro da Fonseca, jamais me esqueci destes pormenores, o titulo só por si já diz qual o conteúdo do livro, no entanto, para a minha mãe o livro não deveria ser lido por mim, assim sendo, pegou em mim, e fomos a casa da dona do livro, aonde ela ralhou dizendo que não queria que me emprestasse mais livro nenhum que aquilo não era para a minha idade, enfim, mais uma vergonha para mim. Esta forma de agir fez-me lembrar quando eu tinha seis anos e a minha prima Rosa nasceu, irmã da Liete, e a Liete me disse que os bebés nasciam da barriga das mães. Eu que nada sabia disso, ingenuamente disse à minha mãe o que tinha aprendido, de imediato também pegou em mim e fomos da Calçada do Correio Velho à rua da Conceição, para a minha mãe dizer o que a Liete me tinha dito e avisar que não queria mais conversas destas comigo. Enfim, eu tinha seis anos, mas agora já tinha dezasseis ou dezassete, não sei precisar. O meu namoro continuava apenas pelo telefone até um dia em que ele resolveu em finalmente esperar e falar com o meu pai que depois de muitas observações, autorizou que ele entrasse em casa para namorarmos. Foi complicado, passei muitas horas, muitos dias à janela, à espera que ele chegasse e não chegava. De repente sem que eu já acreditasse que ele voltava, lá aparecia com todo o carinho e saber da vida, que eu não sabia. As lágrimas soltadas secavam e o coração voltava a acreditar. A minha mãe dizia para acabar tudo, que o mais certo era ele ter outra e andar a brincar comigo, não passava disto a nossa conversa. Por outro lado também dizia que lá na terra uma rapariga que namorasse e depois acabasse o namoro, nunca mais ninguém queria namorar com ela. Contradizia-se e confundia-me. Conheci os padrinhos que moravam em Odivelas, adorei-os, muito simpáticos. Claro que a minha mãe foi connosco. Conheci a mãe, também muito simpática, foi mais do que uma vez a casa dos meus pais, no meu aniversário. Conheci… conheci… mas as ausências prolongadas continuavam, e o sal escorria pelas minhas faces. Apoio não tinha nenhum, nem sequer tinha com quem falar, para além da Liete que namorava o Jorge e tudo corria bem com eles. Sentia-me sozinha e sem saber o que fazer, acabar tudo ou continuar esperando. Os anos passaram e um dia pedi à minha mãe par lhe telefonar e acabar com tudo, mas no fundo tinha a esperança de que ele dissesse que não queria acabar, enganei-me, dois meses depois estava casado. A minha mãe voltou a dizer-me – vês como eu tinha razão, já devias ter acabado á muito tempo. Não chorei mais, as lágrimas não caiam, mas o coração sangrava. Maria Antonieta Bastos Alentado 19-04-2017

terça-feira, 18 de abril de 2017

Eu e a Minha Mãe

Nasci pobre, a minha mãe era costureira de alfaiate, o meu calceteiro, trabalhador da rua. Nasci na casa da minha avó Rosa, onde os meus pais moravam. Pouco tempo depois, o meu pai teve que vir para Lisboa à procura de trabalho. Conseguiu na firma Alves Ribeiro, hospedou-se então, numa pensão na Calçada do Correio Velho, defronte da Igreja de Santo António. Nessa pensão existiam, quartos individuais, e duas salas só para homens, uma, a sala cor-de-rosa, era onde ficavam os senhores que não querendo usar um quarto só para eles, aí ficavam, pagando menos, pois a estadia seria apenas um ou dois dias, o máximo permitido era de uma semana. A outra, a sala amarela era dos operários, que aí permaneciam, tendo acesso à cozinha onde faziam as refeições para o dia-a-dia. Foi nessa sala que o meu esteve quase dois anos, deixando-me a mim e à minha mãe, na Vidigueira. Estando já fartos de estarem longe e tendo o meu pai um trabalho fixo na dita firma, falou então com a D. Joaquina, dona da pensão, se havia hipótese de lhe alugar um quarto para ter a família com ele. Se ela aceitasse seria a primeira vez que teria alguém a tempo inteiro a viver lá. Mas aceitou, e lá viemos nós para Lisboa. O quarto não tinha mais que nove metros quadrados, era um quarto de passagem, sem porta, tinha uma cortina pesada e opaca, que dividia o suposto corredor que dava passagem a outro quarto, o quarto azul, que tinha duas camas de ferro, era um quarto de casal. O nosso tinha uma cama de ferro encostada à parede do lado esquerdo, uma mesa armário feita pelo meu pai, separava a cama onde eu dormia, um divã com colchão de palha. Por detrás desse armário ficava outra porta que dava para um outro quarto, o quarto verde, também ele um quarto de casal, mas essa porta não era usada. Voltando ao nosso quarto, junto ao varão do cortinado, havia uma corda onde tínhamos a roupa pendurada, do outro lado do cortinado, o que era um suposto corredor, que dava passagem a quem ficasse no quarto azul, a minha mãe tinha uma mala com roupa, e em cima era onde tinha alguns utensílios necessários para cozinhar, no canto esquerdo junto à porta do quarto azul, havia um lavatório de ferro e um bidé também em ferro, era aí que fazíamos toda a higiene, as necessidades eram feitas num bacio que depois a minha mãe ia despejar numa sanita que servia todos os residentes da pensão, a diferença era que os outros quem despejava os bacios era a criada, lembro-me da Rosa, que voltou para a aldeia para se casar. A cozinha era grande, com uma enorme chaminé e um fogão a enorme, a carvão, depois havia os fogões a petróleo dos homens da sala amarela e da minha mãe. Tinha uma mesa quadrada, grande, à noite a Rosa passava a roupa em cima dessa mesa, à luz do candeeiro a petróleo, também a minha mãe costurava à luz do petróleo. A filha da D. Joaquina, era professora em Setúbal, só estava presente nos fins-de-semana e nas férias. Foi mais tarde a minha madrinha, fui baptizada na Igreja da Madalena. Punha-me à vontade para andar pela casa toda, no entanto a minha mãe não deixava que eu o fizesse, só mesmo quando a minha madrinha me chamava. Gostávamos uma da outra, ela talvez porque não tinha filhos, eu porque junto dela me sentia gente, pois com a minha mãe sentia-me sempre inferior a todas as pessoas. Dizia-me sempre que não me podia esquecer que era filha de um calceteiro. Até na escola primária, as outras meninas eram superiores a mim, os pais tinham empregos, o meu trabalhava na rua, e foi assim ao longo de toda a minha vida escolar. Por vezes, nos intervalos, isolava-me das colegas, eu não sabia brincar, não sabia saltar à corda, nem à macaca, ou ao ringue, nada, eu nunca tinha brincado. Voltando à minha madrinha, os bonecos, dois, que tive foi ela quem mos deu pelo Natal, também era ela que comprava os tecidos para a minha mãe me fazer os bonitos vestidos que eu usava. Andava sempre muito bem vestida, e com um laçarote no alto da cabeça. O cabelo era sempre curto, corte à garçone, nunca tive tranças ou rabo-de-cavalo. A minha madrinha foi e é o ícone, segui-lhe os gostos, mas com uma enorme diferença, ela era rica, eu nunca o fui, mas gosto de me vestir bem, de conjugar cores, de usar perfume, de ouro, até gosto do Sporting, tal como ela gostava. Foi minha amiga e ajudou a minha mãe até ao final do meu curso, na altura, o curso geral do comércio, a partir do momento em me empreguei nunca mais me deu presentes de valor, antes pelo contrário. Enfim, ideias, mas estou-lhe grata por ter ajudado os meus pais. Voltando atrás, vivemos naquele minúsculo quarto até aos meus nove anos. Entretanto a minha avó Rosa faleceu e as minhas tias Deolinda e Delmira, esta ultima casada com o meu tio Carlos e mãe da minha prima Liete, que tinha apenas mais sete meses que eu. Viveram uns tempos na Rua da Conceição, entretanto o meu tio conseguiu um bom trabalho, era sapateiro, e alugou uma casa na estrada de Benfica, na altura alugavam-se quartos, e foi o que fizeram, mas a casa era no ultimo andar do prédio, tinha sótão, no centro era amplo, depois nos laterias era esconso, então depois muita conversa convenceram os meus pais a irem viver para esse sótão, teriam mais espaço, e combinaram que o sótão era só para dormir, pois cá em baixo é que seria feita a vida toda. Passei a ter junto de mim uma pessoa da minha idade, a Liete. O meu pai tinha arranjado o chão da parte central do sótão, para um dos cantos esconso, foi a terra que saiu do alisamento central, era nesse montinho de terra que eu e a Liete fazíamos os nossos bairros, com os brinquedos que saiam na farinha 33.Outras vezes, raras, ia eu brincar com ela para a varanda, mas logo a tia Deolinda começava a ralhar que sujávamos o chão da sala, e aí estava a minha mãe a chamar-me para ir para o inferno do sótão, gelo no inverno e forno no verão. O que supostamente seria a vida cá em baixo, passou a ser sempre lá em cima, por causa do mau feitio da tia Deolinda. E foi assim até aos meus doze anos, altura em que a minha mãe resolveu alugar casa a meias com uma outra tia, a tia Bia, que tinha também ela, vindo da Vidigueira com os quatro filhos e o marido. Fomos todos para uma casa com três assoalhadas, cozinha a casa de banho. Um quarto para os meus pais, outro para os meus tios, e a sala de jantar onde estava um divã para o meu primo mais velho, o Jorge, dormir. Continuei a dormir no quarto dos meus pais, sempre fora assim. Foi mais ou menos, um ano de suplício, pois o meu tio era um homem mau, que maltratava a mulher e os filhos, a minha mãe de imediato que lhe disse que procurasse casa e saísse dali, o mais rápido possível. Assim foi, arranjou uma casa numa rua ao fundo daquela onde nós morávamos. Nesse pouco tempo, deu para a minha mãe me proibir de falar com o meu primo Jorge, porque apanhou um papel escrito por mim em que lhe dizia que ia passar a trata-lo por tu, isto porque íamos quase todos os dias no mesmo eléctrico, para a Praça do Chile (eu saia na Praça de Espanha) e as minhas colegas gozavam-me por eu tratar um primo por você. Também me proibiu de falar com um outro primo, o Victor, por ter apanhado uma foto minha, pequenina, onde ele escrevera “amo-te”. Nada mais escrevo sobre estes escassos mas longos meses. Os meus tios e primos saíram e a minha mãe alugou o quarto onde eles estavam a uma família, a senhora Maria José, o senhor Francisco e a Fátinha, continuei portanto, a dormir no quarto dos meus pais. Assim cheguei aos meus doze anos sem nunca ter tido uma conversa com a minha mãe, sobre qualquer tipo de assunto, nem sequer sobre a menstruação. Já tinha ouvido falar na escola preparatória, entre as colegas, e também na aula de higiene e moral, também a Liete já era menstruada, mas ela tinha no pai uma pessoa à frente no tempo. Foi ele quem lhe deu o primeiro verniz para as unhas e o primeiro batom, eu até me casar estive proibida de pintar as unhas e os lábios. Um dia pela manhã vi que a menstruação me tinha visitado, nada disse à minha mãe, tinha vergonha, fui buscar uns trapos que tinham servido para brincar, outrora com a Liete, e usei como penso, fui para a escola, lógico que quando dei por mim estava toda suja, foi uma colega, a Celeste, que morava na Buraca quem me acompanhou até casa, dando-me apoio para que não me sentisse tão mal por levar a bata ao contrário e toda torcida. Quando cheguei a casa e a minha mãe viu o estado em que eu estava ralhou comigo por não lhe ter dito, mas não passou daqui, nada falámos. Doze anos sem uma única conversa. Fui para a escola secundária sendo na mesma, uma miúda introvertida, envergonhada e sentindo-me sempre inferior às outras colegas. Nada sabia da vida, isso fez de mim ainda mais curiosa sobre tudo o que não sabia. Nesse primeiro ano encontrei o meu primeiro e verdadeiro amor, um miúdo de olhos bonitos e ar travesso. Começamos a namorar, quase e só por olhares trocados e escassas conversas no comboio que ambos partilhávamos, mesmo assim e ainda hoje não sei como, a minha mãe descobriu. Um belo dia pela manhã, quando saímos do comboio, no Rossio, mesmo defronte da cabine telefónica, sinto duas fortes estaladas na cara, ia eu, ele e uma colega da minha turma. Não sei definir o que senti para além da imensa vergonha dele, da colega e de todos os que passavam na rua naquela hora de ponta. Diálogo não existiu, apenas tareia e horários trocados para que não voltasse a vê-lo. Engano dela, pois também nós trocámos os horários em que nos víamos. Diálogo com a minha mãe? Nunca! Infelizmente nunca houve qualquer tipo de conversa entre nós. Estávamos no ano de 1961. Maria Antonieta Bastos Alentado 18-04-2017 Nota- Escreverei a restante estória.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Eu

EU Olho para trás e nada vejo Um caminho sem interesse, vivendo sem viver, com tudo e sem nada . Incertezas e indecisões, e os dias foram passando, meses e anos e tudo igual, ou desigual, depende do ponto de vista. Fracassos atrás de fracassos, porque nuca tive coragem de agir . Sempre fui fraca, sem vontade própria, deixei-me levar à vontade dos outros, sempre, sempre. Primeiro com a minha mãe, depois com o marido, também no trabalho. Fraca! Fraca! Um monte de merda sem vida, fui eu sempre. Nunca realizei os meus sonhos, sempre chegaram tarde demais. Nunca cheguei a lado algum, nunca me deixaram ser eu. Vivi, passeei, comi e bebi, vesti e calcei bem, mas o que fui?! Nada! Absolutamente nada! Perdi tudo do pouco que consegui. Hoje vivo a contar os dias que faltam para receber o pouco que já está gasto antes desse mesmo dia. Complicado viver assim. Como filha o que fui? - Na maioria das vezes não fui boa filha para com a minha mãe, sei porque agi assim, mas não o devia ter feito. Senti-me sempre prisioneira enquanto adolescente, isso marcou-me ao longo de toda a vida. Para com o meu pai penso que agi sempre de acordo com o amor que trocávamos apenas com um olhar. A minha mãe sentia ciúmes de nós. Hoje tenho pena de não poder voltar atrás e dar todo o carinho e amor que a minha mãe também merecia. Tudo o que fez foi pensando ser o melhor para mim. Como mãe o que fui e sou? – Fui uma mãe permissiva demais, não soube impor o respeito que me era devido. Também agi mal, eu sei, em relação ao primeiro namoro e consequente casamento, já pedi perdão à minha filha. Hoje penso ser a mãe-amiga e conselheira. Boa e de novo permissiva demais. Estou sempre pronta para tudo o que me é possível fazer para a ajudar e ver feliz. Mas nem sempre o consigo, por vezes há uma distância entre nós que não consigo ultrapassar, sinto-a longe de mim. Como profissional o que fui? – Fui uma profissional competente. Apreciada por todos os meus superiores e invejada por todos os que me rodeavam e sempre me tentaram tramar. Tentaram e conseguiram, pois nunca cheguei onde devia e onde era vontade de quase todos os superiores, com excepção da única que se deixava levar por uma inferior a ela mas que sabia demais sobre a mesma e a empresa. Fui indicada para vários lugares de chefia, porque sabiam que eu era capaz de os desempenhar sem quaisquer problemas, mas nunca chegaram a vias de facto, embora se usassem das minhas capacidades sempre que era necessário. Fui chefe sem o ser legalmente. Não lutei, porque se o fizesse tinha conseguido pois também eu tinha muitos trunfos na manga. Fui fraca. E como mulher o que fui e o que sou? – Casei sem saber se amava ou não o meu marido. Sabia que tinha pena da situação em que ele se encontrava, sem tecto, sem afecto, aliás, isso nunca tinha tido da parte dos pais, não tinha nada. Dei-lhe tudo o que ele não tinha e sentia que o fazia feliz. Deixei-me levar num dia-a-dia de me doar sem receber o mesmo em troca. “Gosto de ti à minha maneira” “Tu sabes que gosto de ti” , e o resto? Onde ficou tudo o que não tive? O trabalho, os supostos amigos ocupavam algum do tempo que me pertencia, que era meu por direito e também da nossa filha. A minha revolta era demonstrada com mau humor que se refletia também para com a minha filha e a minha mãe. Errei. Sim errei também nisso. Depois era-me dito que eu tinha mau feitio, que era embirrante, e na realidade até era, mas por detrás estava o ambiente que só eu sabia, pois nunca desabafei com ninguém, nunca disse fosse o que fosse de mal sobre o meu marido, portanto, eu era e sempre fui a má da fita, ele o bonzinho. Amava-me e ama-me, é verdade, e o resto, onde ficava e fica o resto? Sempre tive um bom ordenado, acima da média, mas nunca consegui poupar dinheiro, pois tinha de fazer face a todas as despesas do dia-a-dia, pois “a oficina nunca tinha dinheiro”, e se queria ir de férias era eu que tinha de pagar. Também era eu que comprava todas as prendas de Natal para todos os elementos da família. E comprava tudo o que era necessário para as festas de aniversário. Era eu, e eu, e mais eu, porque “a oficina não tem dinheiro”. Nunca lutei, nunca me impus, nunca disse CHEGA! Do que tive medo para lutar? O que me impediu de ser feliz e lutar por aquilo que desejava e ao fim e ao cabo até merecia? Fracassei! Toda a minha vida foi um fracasso! E agora depois de estar em casa todos os dias, 24 horas seguidas de outras tantas, é horrível. Sinto-me de novo presa, prisioneira de mim mesma que continuo a não me conseguir libertar. Preciso de espaço. Não tenho espaço nem sequer para viver ou respirar. Preciso de liberdade. Quero viver o pouco tempo que me resta de vida. E eu o que fui e o que sou? – Uma frustrada, fracassada, que olha para trás e não vê nada. Aonde fiquei? Perdida na vida dos outros. Aonde estou? Na vida dos meus netos, onde me sinto realizada. Onde brinco como nunca brinquei e sou a menina que nunca fui. Com respeito e alegria somos felizes quando estamos juntos e felizes na ausência com as lembranças boas dos momentos só nossos que partilhamos em loucuras de meninos. Maria Antonieta B. Alentado Oliveira 26-02-2017 – 00h 46m EU Olho para trás e nada vejo Um caminho sem interesse, vivendo sem viver, com tudo e sem nada . Incertezas e indecisões, e os dias foram passando, meses e anos e tudo igual, ou desigual, depende do ponto de vista. Fracassos atrás de fracassos, porque nuca tive coragem de agir . Sempre fui fraca, sem vontade própria, deixei-me levar à vontade dos outros, sempre, sempre. Primeiro com a minha mãe, depois com o marido, também no trabalho. Fraca! Fraca! Um monte de merda sem vida, fui eu sempre. Nunca realizei os meus sonhos, sempre chegaram tarde demais. Nunca cheguei a lado algum, nunca me deixaram ser eu. Vivi, passeei, comi e bebi, vesti e calcei bem, mas o que fui?! Nada! Absolutamente nada! Perdi tudo do pouco que consegui. Hoje vivo a contar os dias que faltam para receber o pouco que já está gasto antes desse mesmo dia. Complicado viver assim. Como filha o que fui? - Na maioria das vezes não fui boa filha para com a minha mãe, sei porque agi assim, mas não o devia ter feito. Senti-me sempre prisioneira enquanto adolescente, isso marcou-me ao longo de toda a vida. Para com o meu pai penso que agi sempre de acordo com o amor que trocávamos apenas com um olhar. A minha mãe sentia ciúmes de nós. Hoje tenho pena de não poder voltar atrás e dar todo o carinho e amor que a minha mãe também merecia. Tudo o que fez foi pensando ser o melhor para mim. Como mãe o que fui e sou? – Fui uma mãe permissiva demais, não soube impor o respeito que me era devido. Também agi mal, eu sei, em relação ao primeiro namoro e consequente casamento, já pedi perdão à minha filha. Hoje penso ser a mãe-amiga e conselheira. Boa e de novo permissiva demais. Estou sempre pronta para tudo o que me é possível fazer para a ajudar e ver feliz. Mas nem sempre o consigo, por vezes há uma distância entre nós que não consigo ultrapassar, sinto-a longe de mim. Como profissional o que fui? – Fui uma profissional competente. Apreciada por todos os meus superiores e invejada por todos os que me rodeavam e sempre me tentaram tramar. Tentaram e conseguiram, pois nunca cheguei onde devia e onde era vontade de quase todos os superiores, com excepção da única que se deixava levar por uma inferior a ela mas que sabia demais sobre a mesma e a empresa. Fui indicada para vários lugares de chefia, porque sabiam que eu era capaz de os desempenhar sem quaisquer problemas, mas nunca chegaram a vias de facto, embora se usassem das minhas capacidades sempre que era necessário. Fui chefe sem o ser legalmente. Não lutei, porque se o fizesse tinha conseguido pois também eu tinha muitos trunfos na manga. Fui fraca. E como mulher o que fui e o que sou? – Casei sem saber se amava ou não o meu marido. Sabia que tinha pena da situação em que ele se encontrava, sem tecto, sem afecto, aliás, isso nunca tinha tido da parte dos pais, não tinha nada. Dei-lhe tudo o que ele não tinha e sentia que o fazia feliz. Deixei-me levar num dia-a-dia de me doar sem receber o mesmo em troca. “Gosto de ti à minha maneira” “Tu sabes que gosto de ti” , e o resto? Onde ficou tudo o que não tive? O trabalho, os supostos amigos ocupavam algum do tempo que me pertencia, que era meu por direito e também da nossa filha. A minha revolta era demonstrada com mau humor que se refletia também para com a minha filha e a minha mãe. Errei. Sim errei também nisso. Depois era-me dito que eu tinha mau feitio, que era embirrante, e na realidade até era, mas por detrás estava o ambiente que só eu sabia, pois nunca desabafei com ninguém, nunca disse fosse o que fosse de mal sobre o meu marido, portanto, eu era e sempre fui a má da fita, ele o bonzinho. Amava-me e ama-me, é verdade, e o resto, onde ficava e fica o resto? Sempre tive um bom ordenado, acima da média, mas nunca consegui poupar dinheiro, pois tinha de fazer face a todas as despesas do dia-a-dia, pois “a oficina nunca tinha dinheiro”, e se queria ir de férias era eu que tinha de pagar. Também era eu que comprava todas as prendas de Natal para todos os elementos da família. E comprava tudo o que era necessário para as festas de aniversário. Era eu, e eu, e mais eu, porque “a oficina não tem dinheiro”. Nunca lutei, nunca me impus, nunca disse CHEGA! Do que tive medo para lutar? O que me impediu de ser feliz e lutar por aquilo que desejava e ao fim e ao cabo até merecia? Fracassei! Toda a minha vida foi um fracasso! E agora depois de estar em casa todos os dias, 24 horas seguidas de outras tantas, é horrível. Sinto-me de novo presa, prisioneira de mim mesma que continuo a não me conseguir libertar. Preciso de espaço. Não tenho espaço nem sequer para viver ou respirar. Preciso de liberdade. Quero viver o pouco tempo que me resta de vida. E eu o que fui e o que sou? – Uma frustrada, fracassada, que olha para trás e não vê nada. Aonde fiquei? Perdida na vida dos outros. Aonde estou? Na vida dos meus netos, onde me sinto realizada. Onde brinco como nunca brinquei e sou a menina que nunca fui. Com respeito e alegria somos felizes quando estamos juntos e felizes na ausência com as lembranças boas dos momentos só nossos que partilhamos em loucuras de meninos. Maria Antonieta B. Alentado Oliveira 26-02-2017 – 00h 46m EU Olho para trás e nada vejo Um caminho sem interesse, vivendo sem viver, com tudo e sem nada . Incertezas e indecisões, e os dias foram passando, meses e anos e tudo igual, ou desigual, depende do ponto de vista. Fracassos atrás de fracassos, porque nuca tive coragem de agir . Sempre fui fraca, sem vontade própria, deixei-me levar à vontade dos outros, sempre, sempre. Primeiro com a minha mãe, depois com o marido, também no trabalho. Fraca! Fraca! Um monte de merda sem vida, fui eu sempre. Nunca realizei os meus sonhos, sempre chegaram tarde demais. Nunca cheguei a lado algum, nunca me deixaram ser eu. Vivi, passeei, comi e bebi, vesti e calcei bem, mas o que fui?! Nada! Absolutamente nada! Perdi tudo do pouco que consegui. Hoje vivo a contar os dias que faltam para receber o pouco que já está gasto antes desse mesmo dia. Complicado viver assim. Como filha o que fui? - Na maioria das vezes não fui boa filha para com a minha mãe, sei porque agi assim, mas não o devia ter feito. Senti-me sempre prisioneira enquanto adolescente, isso marcou-me ao longo de toda a vida. Para com o meu pai penso que agi sempre de acordo com o amor que trocávamos apenas com um olhar. A minha mãe sentia ciúmes de nós. Hoje tenho pena de não poder voltar atrás e dar todo o carinho e amor que a minha mãe também merecia. Tudo o que fez foi pensando ser o melhor para mim. Como mãe o que fui e sou? – Fui uma mãe permissiva demais, não soube impor o respeito que me era devido. Também agi mal, eu sei, em relação ao primeiro namoro e consequente casamento, já pedi perdão à minha filha. Hoje penso ser a mãe-amiga e conselheira. Boa e de novo permissiva demais. Estou sempre pronta para tudo o que me é possível fazer para a ajudar e ver feliz. Mas nem sempre o consigo, por vezes há uma distância entre nós que não consigo ultrapassar, sinto-a longe de mim. Como profissional o que fui? – Fui uma profissional competente. Apreciada por todos os meus superiores e invejada por todos os que me rodeavam e sempre me tentaram tramar. Tentaram e conseguiram, pois nunca cheguei onde devia e onde era vontade de quase todos os superiores, com excepção da única que se deixava levar por uma inferior a ela mas que sabia demais sobre a mesma e a empresa. Fui indicada para vários lugares de chefia, porque sabiam que eu era capaz de os desempenhar sem quaisquer problemas, mas nunca chegaram a vias de facto, embora se usassem das minhas capacidades sempre que era necessário. Fui chefe sem o ser legalmente. Não lutei, porque se o fizesse tinha conseguido pois também eu tinha muitos trunfos na manga. Fui fraca. E como mulher o que fui e o que sou? – Casei sem saber se amava ou não o meu marido. Sabia que tinha pena da situação em que ele se encontrava, sem tecto, sem afecto, aliás, isso nunca tinha tido da parte dos pais, não tinha nada. Dei-lhe tudo o que ele não tinha e sentia que o fazia feliz. Deixei-me levar num dia-a-dia de me doar sem receber o mesmo em troca. “Gosto de ti à minha maneira” “Tu sabes que gosto de ti” , e o resto? Onde ficou tudo o que não tive? O trabalho, os supostos amigos ocupavam algum do tempo que me pertencia, que era meu por direito e também da nossa filha. A minha revolta era demonstrada com mau humor que se refletia também para com a minha filha e a minha mãe. Errei. Sim errei também nisso. Depois era-me dito que eu tinha mau feitio, que era embirrante, e na realidade até era, mas por detrás estava o ambiente que só eu sabia, pois nunca desabafei com ninguém, nunca disse fosse o que fosse de mal sobre o meu marido, portanto, eu era e sempre fui a má da fita, ele o bonzinho. Amava-me e ama-me, é verdade, e o resto, onde ficava e fica o resto? Sempre tive um bom ordenado, acima da média, mas nunca consegui poupar dinheiro, pois tinha de fazer face a todas as despesas do dia-a-dia, pois “a oficina nunca tinha dinheiro”, e se queria ir de férias era eu que tinha de pagar. Também era eu que comprava todas as prendas de Natal para todos os elementos da família. E comprava tudo o que era necessário para as festas de aniversário. Era eu, e eu, e mais eu, porque “a oficina não tem dinheiro”. Nunca lutei, nunca me impus, nunca disse CHEGA! Do que tive medo para lutar? O que me impediu de ser feliz e lutar por aquilo que desejava e ao fim e ao cabo até merecia? Fracassei! Toda a minha vida foi um fracasso! E agora depois de estar em casa todos os dias, 24 horas seguidas de outras tantas, é horrível. Sinto-me de novo presa, prisioneira de mim mesma que continuo a não me conseguir libertar. Preciso de espaço. Não tenho espaço nem sequer para viver ou respirar. Preciso de liberdade. Quero viver o pouco tempo que me resta de vida. E eu o que fui e o que sou? – Uma frustrada, fracassada, que olha para trás e não vê nada. Aonde fiquei? Perdida na vida dos outros. Aonde estou? Na vida dos meus netos, onde me sinto realizada. Onde brinco como nunca brinquei e sou a menina que nunca fui. Com respeito e alegria somos felizes quando estamos juntos e felizes na ausência com as lembranças boas dos momentos só nossos que partilhamos em loucuras de meninos. Maria Antonieta B. Alentado Oliveira 26-02-2017 – 00h 46m EU Olho para trás e nada vejo Um caminho sem interesse, vivendo sem viver, com tudo e sem nada . Incertezas e indecisões, e os dias foram passando, meses e anos e tudo igual, ou desigual, depende do ponto de vista. Fracassos atrás de fracassos, porque nuca tive coragem de agir . Sempre fui fraca, sem vontade própria, deixei-me levar à vontade dos outros, sempre, sempre. Primeiro com a minha mãe, depois com o marido, também no trabalho. Fraca! Fraca! Um monte de merda sem vida, fui eu sempre. Nunca realizei os meus sonhos, sempre chegaram tarde demais. Nunca cheguei a lado algum, nunca me deixaram ser eu. Vivi, passeei, comi e bebi, vesti e calcei bem, mas o que fui?! Nada! Absolutamente nada! Perdi tudo do pouco que consegui. Hoje vivo a contar os dias que faltam para receber o pouco que já está gasto antes desse mesmo dia. Complicado viver assim. Como filha o que fui? - Na maioria das vezes não fui boa filha para com a minha mãe, sei porque agi assim, mas não o devia ter feito. Senti-me sempre prisioneira enquanto adolescente, isso marcou-me ao longo de toda a vida. Para com o meu pai penso que agi sempre de acordo com o amor que trocávamos apenas com um olhar. A minha mãe sentia ciúmes de nós. Hoje tenho pena de não poder voltar atrás e dar todo o carinho e amor que a minha mãe também merecia. Tudo o que fez foi pensando ser o melhor para mim. Como mãe o que fui e sou? – Fui uma mãe permissiva demais, não soube impor o respeito que me era devido. Também agi mal, eu sei, em relação ao primeiro namoro e consequente casamento, já pedi perdão à minha filha. Hoje penso ser a mãe-amiga e conselheira. Boa e de novo permissiva demais. Estou sempre pronta para tudo o que me é possível fazer para a ajudar e ver feliz. Mas nem sempre o consigo, por vezes há uma distância entre nós que não consigo ultrapassar, sinto-a longe de mim. Como profissional o que fui? – Fui uma profissional competente. Apreciada por todos os meus superiores e invejada por todos os que me rodeavam e sempre me tentaram tramar. Tentaram e conseguiram, pois nunca cheguei onde devia e onde era vontade de quase todos os superiores, com excepção da única que se deixava levar por uma inferior a ela mas que sabia demais sobre a mesma e a empresa. Fui indicada para vários lugares de chefia, porque sabiam que eu era capaz de os desempenhar sem quaisquer problemas, mas nunca chegaram a vias de facto, embora se usassem das minhas capacidades sempre que era necessário. Fui chefe sem o ser legalmente. Não lutei, porque se o fizesse tinha conseguido pois também eu tinha muitos trunfos na manga. Fui fraca. E como mulher o que fui e o que sou? – Casei sem saber se amava ou não o meu marido. Sabia que tinha pena da situação em que ele se encontrava, sem tecto, sem afecto, aliás, isso nunca tinha tido da parte dos pais, não tinha nada. Dei-lhe tudo o que ele não tinha e sentia que o fazia feliz. Deixei-me levar num dia-a-dia de me doar sem receber o mesmo em troca. “Gosto de ti à minha maneira” “Tu sabes que gosto de ti” , e o resto? Onde ficou tudo o que não tive? O trabalho, os supostos amigos ocupavam algum do tempo que me pertencia, que era meu por direito e também da nossa filha. A minha revolta era demonstrada com mau humor que se refletia também para com a minha filha e a minha mãe. Errei. Sim errei também nisso. Depois era-me dito que eu tinha mau feitio, que era embirrante, e na realidade até era, mas por detrás estava o ambiente que só eu sabia, pois nunca desabafei com ninguém, nunca disse fosse o que fosse de mal sobre o meu marido, portanto, eu era e sempre fui a má da fita, ele o bonzinho. Amava-me e ama-me, é verdade, e o resto, onde ficava e fica o resto? Sempre tive um bom ordenado, acima da média, mas nunca consegui poupar dinheiro, pois tinha de fazer face a todas as despesas do dia-a-dia, pois “a oficina nunca tinha dinheiro”, e se queria ir de férias era eu que tinha de pagar. Também era eu que comprava todas as prendas de Natal para todos os elementos da família. E comprava tudo o que era necessário para as festas de aniversário. Era eu, e eu, e mais eu, porque “a oficina não tem dinheiro”. Nunca lutei, nunca me impus, nunca disse CHEGA! Do que tive medo para lutar? O que me impediu de ser feliz e lutar por aquilo que desejava e ao fim e ao cabo até merecia? Fracassei! Toda a minha vida foi um fracasso! E agora depois de estar em casa todos os dias, 24 horas seguidas de outras tantas, é horrível. Sinto-me de novo presa, prisioneira de mim mesma que continuo a não me conseguir libertar. Preciso de espaço. Não tenho espaço nem sequer para viver ou respirar. Preciso de liberdade. Quero viver o pouco tempo que me resta de vida. E eu o que fui e o que sou? – Uma frustrada, fracassada, que olha para trás e não vê nada. Aonde fiquei? Perdida na vida dos outros. Aonde estou? Na vida dos meus netos, onde me sinto realizada. Onde brinco como nunca brinquei e sou a menina que nunca fui. Com respeito e alegria somos felizes quando estamos juntos e felizes na ausência com as lembranças boas dos momentos só nossos que partilhamos em loucuras de meninos. Maria Antonieta B. Alentado Oliveira 26-02-2017 – 00h 46m EU Olho para trás e nada vejo Um caminho sem interesse, vivendo sem viver, com tudo e sem nada . Incertezas e indecisões, e os dias foram passando, meses e anos e tudo igual, ou desigual, depende do ponto de vista. Fracassos atrás de fracassos, porque nuca tive coragem de agir . Sempre fui fraca, sem vontade própria, deixei-me levar à vontade dos outros, sempre, sempre. Primeiro com a minha mãe, depois com o marido, também no trabalho. Fraca! Fraca! Um monte de merda sem vida, fui eu sempre. Nunca realizei os meus sonhos, sempre chegaram tarde demais. Nunca cheguei a lado algum, nunca me deixaram ser eu. Vivi, passeei, comi e bebi, vesti e calcei bem, mas o que fui?! Nada! Absolutamente nada! Perdi tudo do pouco que consegui. Hoje vivo a contar os dias que faltam para receber o pouco que já está gasto antes desse mesmo dia. Complicado viver assim. Como filha o que fui? - Na maioria das vezes não fui boa filha para com a minha mãe, sei porque agi assim, mas não o devia ter feito. Senti-me sempre prisioneira enquanto adolescente, isso marcou-me ao longo de toda a vida. Para com o meu pai penso que agi sempre de acordo com o amor que trocávamos apenas com um olhar. A minha mãe sentia ciúmes de nós. Hoje tenho pena de não poder voltar atrás e dar todo o carinho e amor que a minha mãe também merecia. Tudo o que fez foi pensando ser o melhor para mim. Como mãe o que fui e sou? – Fui uma mãe permissiva demais, não soube impor o respeito que me era devido. Também agi mal, eu sei, em relação ao primeiro namoro e consequente casamento, já pedi perdão à minha filha. Hoje penso ser a mãe-amiga e conselheira. Boa e de novo permissiva demais. Estou sempre pronta para tudo o que me é possível fazer para a ajudar e ver feliz. Mas nem sempre o consigo, por vezes há uma distância entre nós que não consigo ultrapassar, sinto-a longe de mim. Como profissional o que fui? – Fui uma profissional competente. Apreciada por todos os meus superiores e invejada por todos os que me rodeavam e sempre me tentaram tramar. Tentaram e conseguiram, pois nunca cheguei onde devia e onde era vontade de quase todos os superiores, com excepção da única que se deixava levar por uma inferior a ela mas que sabia demais sobre a mesma e a empresa. Fui indicada para vários lugares de chefia, porque sabiam que eu era capaz de os desempenhar sem quaisquer problemas, mas nunca chegaram a vias de facto, embora se usassem das minhas capacidades sempre que era necessário. Fui chefe sem o ser legalmente. Não lutei, porque se o fizesse tinha conseguido pois também eu tinha muitos trunfos na manga. Fui fraca. E como mulher o que fui e o que sou? – Casei sem saber se amava ou não o meu marido. Sabia que tinha pena da situação em que ele se encontrava, sem tecto, sem afecto, aliás, isso nunca tinha tido da parte dos pais, não tinha nada. Dei-lhe tudo o que ele não tinha e sentia que o fazia feliz. Deixei-me levar num dia-a-dia de me doar sem receber o mesmo em troca. “Gosto de ti à minha maneira” “Tu sabes que gosto de ti” , e o resto? Onde ficou tudo o que não tive? O trabalho, os supostos amigos ocupavam algum do tempo que me pertencia, que era meu por direito e também da nossa filha. A minha revolta era demonstrada com mau humor que se refletia também para com a minha filha e a minha mãe. Errei. Sim errei também nisso. Depois era-me dito que eu tinha mau feitio, que era embirrante, e na realidade até era, mas por detrás estava o ambiente que só eu sabia, pois nunca desabafei com ninguém, nunca disse fosse o que fosse de mal sobre o meu marido, portanto, eu era e sempre fui a má da fita, ele o bonzinho. Amava-me e ama-me, é verdade, e o resto, onde ficava e fica o resto? Sempre tive um bom ordenado, acima da média, mas nunca consegui poupar dinheiro, pois tinha de fazer face a todas as despesas do dia-a-dia, pois “a oficina nunca tinha dinheiro”, e se queria ir de férias era eu que tinha de pagar. Também era eu que comprava todas as prendas de Natal para todos os elementos da família. E comprava tudo o que era necessário para as festas de aniversário. Era eu, e eu, e mais eu, porque “a oficina não tem dinheiro”. Nunca lutei, nunca me impus, nunca disse CHEGA! Do que tive medo para lutar? O que me impediu de ser feliz e lutar por aquilo que desejava e ao fim e ao cabo até merecia? Fracassei! Toda a minha vida foi um fracasso! E agora depois de estar em casa todos os dias, 24 horas seguidas de outras tantas, é horrível. Sinto-me de novo presa, prisioneira de mim mesma que continuo a não me conseguir libertar. Preciso de espaço. Não tenho espaço nem sequer para viver ou respirar. Preciso de liberdade. Quero viver o pouco tempo que me resta de vida. E eu o que fui e o que sou? – Uma frustrada, fracassada, que olha para trás e não vê nada. Aonde fiquei? Perdida na vida dos outros. Aonde estou? Na vida dos meus netos, onde me sinto realizada. Onde brinco como nunca brinquei e sou a menina que nunca fui. Com respeito e alegria somos felizes quando estamos juntos e felizes na ausência com as lembranças boas dos momentos só nossos que partilhamos em loucuras de meninos. Maria Antonieta B. Alentado Oliveira 26-02-2017 – 00h 46m