Ontem, hoje e amanhã!

Retratos do dia a dia!

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Parabéns, Meu Amor

Era uma tarde quente de Agosto. Tu, quiseste sair do aconchego do meu ventre. Fizeste de mim a mãe que sou. E, que mãe sou eu? Dei-te todo o meu amor e carinho desde o momento em que nasceste. Dei-te o colo que desejaste, sem um queixume, subindo a rua que ia da praia até à casa do tio Carvoeiras, em Vila Nova de Milfontes, na esturra do calor de verão. Ou, nas sestas em que adormecias ao meu colo e durante horas me mantinha sentada com a tua cabeça deitada no meu braço. Ou ainda quando teimosamente não querias adormecer e a noite já caminhava, e eu te adormecia, de novo, no meu colo. E nas noites em que acordavas com medo, lá ia eu sentar-me no chão ao lado da tua cama, até que adormecesses. Quando uma vez caíste do triciclo, por detrás da oficina do pai, fui eu que carreguei contigo ao colo e te levei no carro do tio Rui, porque o pai estava ocupado a trabalhar, até à policlínica aonde te foi feito o tratamento ao joelho, face e braço. Mais tarde fui eu que fiz de compincha quando um professor me contou algo menos bom, em relação ao teu comportamento no recreio da escola, e nada contei ao teu pai para não arranjar problemas contigo. A seguir quando do teu primeiro namoro oficial, também fui eu que dei a volta ao teu pai para o convencer que era melhor autorizar do que andares pela rua ao beijos e abraços. E aquando do casamento também fui eu a convencê-lo. Fui eu que me sentei na tua cama, na véspera deste casamento, e te disse que se acaso não quisesses seguir em frente, eu assumiria tudo e desmarcava, falando com todas as pessoas intervenientes. Ao longo do tempo fui-me apercebendo que nada corria bem convosco, pensei que se vivessem sozinhos a situação melhorava, pois isso acontecera comigo, daí falarmos na hipótese da compra de uma casa para ti/vós. Dito e feito e a casa foi comprada, mas não resultou, não sei se foste tu que o puseste na rua, se foi ele que saiu, sei que apareceu para voltar a dormir aqui porque não tinha aonde ficar. Se pensas que foi com satisfação que o deixei aqui ficar até o convencer a ir embora, estás muito enganada, por mim ele nunca aqui tinha ficado, mas por outro lado também não achei jeito deixá-lo na rua. Por outro lado também não queria de modo algum que ele me considerasse uma inimiga, porque no caso de se divorciarem, eu queria convence-lo a abdicar da casa, ela era tua, tínhamos sido nós a pagar todas as despesas inerentes à compra, a casa era só tua, ele não tinha nada lá. E consegui. Até ao divórcio mantive sempre com ele bastante contacto, sendo até confidente e conselheira, depois, aos poucos fui-me afastando dessa amizade, ora não atendendo o telefone, ora inventando qualquer coisa para terminar a conversa, não sei se percebeu ou não, mas sei que se afastou. As escassas vezes que me quiseste como ouvinte, estive presente, dei-te o apoio que soube, se não foi o que querias, não foi por mal, foi talvez por não o saber fazer de outra forma. Monetariamente não posso fazer mais do que faço, quando podia sempre te ajudei. Amor, esse é incondicional, e tu sabes o que é o amor de uma mãe pelos seus filhos. Pelo facto de ralharmos ou gritarmos, tu também gritas com os teus, não significa que não gostemos deles. O meu amor por ti é 44 anos maior, do que no dia em que nasceste. Se necessário for darei a vida por ti, és a minha filha, que amo muito. Se tenho mau feitio, tenho, tu também tens, todos temos mais ou menos, um feitio complicado e diferente de pessoa para pessoa. Não tive uma infância nem uma adolescência feliz, antes pelo contrário, o que fez de mim uma pessoa revoltada, aquilo a que chamas “fazer-me de vítima”, deve-se em muito aos meus primeiros vinte um anos de vida. Depois, bem depois, também não tem sido fácil, mas isso já é outro assunto, já passei muito, agora já consigo viver com um pouco mais de paciência, para a vida que me surge a cada dia que passa. Hoje tenho a maior riqueza do mundo, e foste tu quem ma ofertou, os meus netos, são a minha alegria, a minha força para continuar. Hoje quero ser feliz contigo, minha filha. Maria Antonieta Oliveira 17-08-2017

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Balança

Gostava de olhar para trás e dizer: - fui feliz. E fui, em determinados momentos. E se puser esses momentos na balança para que lado ela pesará?! Para os bons, os felizes, ou para os menos e até maus momentos, os infelizes?! A vida é complicada, eu sei. Os meus pais tiveram uma vida difícil em termos monetários, mas nunca me faltaram com coisa alguma, do é essencial para viver. Os poucos brinquedos que tive, foram ofertados pela minha madrinha, ou então, aqueles que saiam na caixa de farinha 33, pequeninos mas muito engraçados. Brinquei sozinha, sem crianças comigo. Não soube o que era ter amigas, ou brincar na rua, ou saltar à corda, ou jogar ao ringue, não vivi a meninice normal de uma criança, por mais pobre que fossem, tinham amigas e brincavam com elas. Não fui adolescente como qualquer outra adolescente. As amizades que tinha, ficavam pela escola, fora disso não tinha amigas, continuei a minha caminhada sozinha. As descobertas eram feitas apenas e só por mim, boas ou más, eram a minha descoberta. Não podia sair de casa com ninguém sem que a minha mãe me acompanhasse, o que era complicado para mim ter sempre a sua presença em tudo o que fazia. Ensinou-me a mentir, pois assim conseguia fugir às suas imposições, o pior era quando ela descobria as minhas tramoias, os castigos nunca foram dóceis, até bastante tarde as tareias eram uma constante, assim como os adjectivos menos próprios de serem ouvidos por uma criança e depois por uma adolescente. Encontrei o amor, num miúdo com uns olhos lindos que me cativaram, com muitos contratempos pela parte dos meus pais, especialmente da minha mãe, mas superei tudo isso e amamo-nos durante quase cinco anos. Chorei muitas lágrimas provocadas pelas suas longas ausências, e por saber que tinha outras namoradas, mas depois, e na tal balança, o amor era maior que tudo o que não me agradava, e o tempo passou. Também no namoro a presença da minha mãe foi uma constante. Tudo acabou, fiquei revoltada com a situação e infeliz. O tempo passou outro amor, ou talvez não, nunca soube ao certo se era amor o que me levou a casar com quem casei, mas foi uma forma de me livrar da opressão da minha mãe. Outra vida. Fui mãe aos 25 anos, até aí a minha vida tinha sido pautada por momentos felizes, infelizes, tristes, de revolta, de desânimo, de força de seguir em frente, e fui seguindo em frente. O meu ordenado era para tudo, excepto a gasolina do carro e refeições fora de casa. A conversa foi sempre a mesma ao longo de todos os anos: - a oficina não tem dinheiro – e, se eu queria algo ou ir de férias, tinha que ter dinheiro para o fazer. Também fui eu que paguei os estudos da filha e o enxoval dela. Era eu quem comprava a roupa e calçado para os três, pois era. Os carros sucederam-se em catadupa, bem contados chegaram de certeza a uma centena, 95% foram vendidos com prejuízo. Com as vendas a pronto e as compras a prestações, foi construída a casa na Charneca da Caparica. Foram fins-de-semana sobre fins-de-semana, sem parar, a caminhar para lá a aturar bêbados que iam trabalhar na obra. Depois de “pronta” continuaram os fins-de-semana, mas a aturar família e amigos que só se lembravam de nós quando queriam ir para lá descansar, pois o trabalho e as despesas com o comer, era nosso. Foram vinte anos de bons e mus momentos, na tal balança penderia de certeza para os maus momentos. Só concordei com a venda, depois de ter a certeza que seria comprada uma casa na Vidigueira, pois caso contrário, o dinheiro desaparecia todo. Foi o que fizemos. Durante os quinze anos em a tivemos, na tal balança, ficava imóvel, nem momentos felizes nem infelizes, nada, absolutamente nada. O valor da venda foi para pagar o que devia, quer a fornecedores, quer ao Unibanco e ao hospital do SMAS. Reformei-me cedo demais, com uma penalização de 45%, mas tive que o fazer, mais uma vez – a oficina não tinha dinheiro – fiquei com uma reforma de merda, neste momento é de 458€. O Victor só começou a descontar para a SS quando foi obrigado a fazê-lo e sempre pelo ordenado mínimo, a reforma é de 407€, já depois deste celebre aumento de 10€. Hoje torce a orelha mas já não há nada a fazer. As despesas continuam a ser as mesmas, seguros de carro e carrinha, IMI, IUC de ambos os carros, inspecções, gasóleo, água, luz, gás, TV, telefone e internet, medicamentos que antes não haviam mais os que já existiam, comer e beber, e por aí fora, agora sou eu quem orienta ambas as reformas de modo a pagar tudo sem ficar a dever nada, o que não é nada fácil. E a tal balança como fica aqui? – nem sei definir, é muito complicado, muito complicado. O tempo passa e os momentos continuam a ser felizes e infelizes, já não há meio-termo. A paciência esgota-se num ápice e as discussões surgem com as já habituais palavras menos bonitas, a falta de respeito instalou-se há muito e continua. A seguir os pedidos de desculpa, mais uns momentos e tudo volta ao mesmo. Entretanto e há apenas dois anos reencontrei-te, foi bom, muito bom. A tal balança vira com rapidez para os momentos felizes. Momentos muito felizes. - RECORDO: - Os bons momentos em que a minha mãe me mimava com beijinhos, enquanto miúda. - A subida da Av. Almirante Reis até Arroios, onde morava o meu padrinho, e ouvir o meu pai cantarolar o raspa, e assobiar também, para que eu subisse sem querer colo. - Momentos passados com a minha madrinha, minha musa, e conversas tidas com ela. - O Castelo de S. Jorge e tudo o que lá vivi - A escola Patrício Prazeres e os momentos lá passados, onde deu azo à minha rebeldia de adolescente, mentindo à minha mãe e saindo da escola sem que ela soubesse. - A estalada que a minha mãe me deu defronte dos CTT junto à estação dos comboios no Rossio. - Férias com a minha prima Liete, o marido e os nossos respectivos filhos, a percorrer o país, e/ ou na praia. - O nascimento da minha filha e os dias passados na ASMECDL, com um calor abrasador. O Victor dormiu sempre no quarto onde eu estava. - As noites por dormir, os sorrisos, os choros e birras para comer, os primeiros passos, os dentes, enfim, tudo o que um bebé nós dá, bom e mau. Claro que aqui vencem os bons momentos. Depois a escola em Benfica e a seguir em Caneças, onde começaram os namoricos. Foi sempre boa aluna. Fui cúmplice sempre que havia asneira, pois o pai não sabia lidar com ela. O casamento atribulado, os relacionamentos que se seguiram ao divórcio, e agora este casamento, que na minha opinião a única coisa boa são os meninos. - O meu Rafito que tive nos braços desde bebé. Passava os fins-de-semana connosco para os pais descansarem. Tinha apenas quatro meses quando os pais foram passar uma semana ao Brasil, e ele ficou connosco, no Alentejo. Até a irmã ser já crescidinha, foi muito meu, passou muitos dias seguidos comigo. Depois houve uma fase em que me foi imposto que ele estaria se a irmã estivesse, e como ela não queria, porque sempre foi criada mais com a mãe, ele também não estava. Foi complicado. Mas, como entretanto era preciso ir busca-los à escola, lá ia a caminho do Montijo e via-os. Agora tenho os dois, ambos me dão muito carinho. Ambos me dão muito amor puro e verdadeiro. Sem qualquer duvida que a balança vai para a felicidade. - Também recordo o emprego, único, apenas na CIPAN, com bons e maus momentos. Reconhecida pela entidade patronal e por todos os superiores hierárquicos, mas rodeada de inveja por algumas colegas, o que tornava o ambiente desconfortável. Aqui a balança iria para os bons momentos. - Os gritos que dei e ouvi em discussões com o Victor e com a Carla, ao longo de muitos anos. - A frase que sempre ouvi e ouço – gosto de ti à minha maneira – e gosta, acredito, mas tal como diz – à sua maneira. - AGRADEÇO: - À minha mãe por tudo o que fez por mim, mesmo o que não gostei, pois a intenção foi a melhor, ela só queria o meu bem, daí a sua infinda protecção. - Ao meu pai pela paciência que teve para com a minha mãe e por mesmo bêbado nunca ter dado mau ambiente. - A ti por teres voltado, embora saibamos que temos uma vida para além de nós, é bom saber que estás, que és presente. - A Deus, porque creio que nada acontece por acaso, e não foi um acaso que fez com que a minha vida fosse o que tem sido. Os bons e os maus momentos têm feito de mim, a pessoa que sou hoje. Posso considerar-me uma pessoa saudável, muito embora, desde menina tenha problemas com o sistema nervoso. Já com várias depressões, que aos olhos, especialmente da minha filha, o não são, são apenas o meu mau feitio e a mania de me fazer de coitadinha, de vítima. - Ao fim, e ao cabo, agradeço à vida por me dar a vida que vivo. Uma reflexão difícil de compreender, quando afinal, já pensei tantas vezes em desistir da vida. Maria Antonieta Bastos Alentado 10-08-2017 (23 h 15 m)

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Aliviar o Stress

Não sei o que tenho, o que se passa comigo, a quem amo, a quem odeio, porque sofro, o que sinto. A minha vida é um turbilhão de emoções. Virou um caos. Já não temos paciência um para o outro, até parece que nos odiamos, talvez, quem sabe. De tudo surge uma discussão onde os palavrões de sempre voltam de novo. Dizes e eu respondo, a falta de respeito está instalada, aliás, quase sempre assim foi. Por tudo e por nada nos pegamos. É triste viver assim. Nada me resta, para além de um pouco, os meus netos e tu. Conheces-me bem, sabes que não estou bem, e eu minto-te, não te quero preocupar, e também não sei o que te dizer, porque no fundo não sei o que tenho. Por vezes comparo-me com o que senti já várias vezes, mas que já há alguns anos não sentia, as minhas depressões, sim, depressões por vezes até bastantes prolongadas e graves. Os pensamentos são os mesmos e mais alguns, já não penso só em abrir a porta do carro em andamento, ou em tomar comprimidos em dose exagerada, isso já é pouco. Agora as facas tentam-me, quer para me agredir, quer para agredir outrem. Olho-as e desafiam-me, tenho medo de mim. Sei que só Deus é Senhor para me levar daqui, sei que se o fizer e conseguir partir, nunca mais terei paz, afinal, é a paz que procuro. A minha cabeça parece oca, vazia, desnorteada, por vezes não digo coisa com coisa, esqueço-me do que vou fazer ou dizer, descontrolo-me com facilidade e perco a razão. Sei que tens dias em que também não estás bem, também já te conheço. “Se eu pudesse, ter-te-ia dito: - espera amor, que eu vou passear contigo” Quantas vezes, estas palavras surgem no meu pensamento, mas não posso, não devo. Por mim e por ti, não posso nem devo. Escrevo para aliviar o meu sofrimento moral, já que o físico, nem com as drogas habituais lá vai. Não odeio ninguém, não, ninguém merece o meu ódio. Mas amo, sim amo e sei a quem amo. Sei por quem o meu coração bate mais forte. Amor que vivo e sinto como uma adolescente enamorada. Amor, amor eterno pelos meus netos, que não merecem que a avó os faça sofrer, porque eles, amam-me. Sinto-o e sei que é puro e verdadeiro. Amor pela filha, muito embora ela por vezes, muitas vezes, me deixe triste e infeliz com as atitudes e as palavras que me diz. Queria amar a vida mas já não a amo. Ela traiu-me e trai-me a cada minuto que passa. Será que algum dia consigo dizer – “finalmente sou feliz!” ?! Mas a felicidade são momentos, e eu tenho momentos de felicidade. Quando ouço a tua voz, quando sinto as tuas mãos nas minhas, quando sinto o calor do teu corpo, quando sinto os teus lábios nos meus, até quando penso em ti, sou feliz. Serei?! Depende daquilo que penso. Portanto, sou feliz! Tenho que saber viver cada momento que a vida me dá, em que me sinta feliz, e nos restantes momentos, viver a recordação desses mesmos momentos, para me sentir feliz, e assim, serei sempre feliz. Até parece fácil, mas não é. Mas eu quero e preciso ser feliz! Maria Antonieta Oliveira 29-06-2017

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Eu e o Trabalho

Como já disse atrás, acabei o curso com apenas 16 anos, em 1964, e de imediato fui trabalhar para o escritório da empresa CIPAN. Uma empresa com apenas quatro meses de actividade. Fui para a secção da contabilidade industrial, onde era calculado o custo do produto (antibióticos) à saída da fábrica. A Célia era a chefe, depois havia a Teresa e entrei eu. Quem orientava e direcionava toda a contabilidade industrial e geral, era o Dr. Matos (Manuel Maria de Matos), durante dois anos e em relação à CIPAN - Lisboa, também foi ele quem orientava a tesouraria, os armazéns e a secção de controle. Na minha secção o trabalho era dividido consoante o Dr, nos dizia. A Célia casou em Outubro desse mesmo ano e em Novembro saiu da empresa, ficando apenas eu e a Teresa na contabilidade industrial e numa sala só para nós. A partir daí foi a mim que o Dr. deu poderes e ensinou tudo o que passou a ser o custeio industrial, passei a ter comigo duas pessoas a trabalhar, a Teresa e a Graciete que entretanto entrou. Como era hábito da firma após os três meses de experiência, se a pessoa ficasse ao serviço recebia um aumento de 250,00 $, passei então a ganhar 1250,00 $, muito bom para a época. Aproximou-se Janeiro mês em que invariavelmente havia aumentos para todo o pessoal, passei a receber 1680,00 $, o que irritou a Rita, chefe da secção de controle, e que não estava a gostar da minha ascensão, pois tinha ciúmes do Dr. Matos , pensado ela que eu e ele tínhamos algo mais que trabalho, ela queria-o para amante, pois o senhor era casado e pai de filhos, ela era já considerada solteirona, mas para além disso, também só queria alguém que lhe desse poder e estabilidade dentro da empresa. O meu nome foi falado na administração por em tão pouco tempo já estar com o mesmo ordenado da pessoa da secção dela, com mais tempo na casa, e em quem ela confiava o trabalho. Primeira derrota. Ao longo dos anos e muito mais depois do falecimento do Dr. Matos em Maio de 1970, passei a ter todo o poder sobre a contabilidade industrial, pois mais ninguém sabia fazer os mapas até chegar ao custo final da cada produto fabricado, que também ao longo dos anos foram aumentando. A contabilidade geral (Odete) não podia fazer o fecho de contas sem que eu tivesse acabado o chamado custeio anual, para que a secção de controle (Rita) fizesse a avaliação das existências. Fiz muitos serões, muitos sábados de trabalho, trouxe muito trabalho para casa, passando fins-de-semana a trabalhar até às quatro/cinco da manhã, sem qualquer remuneração extra. Também nunca me dificultaram a vida sempre que quis fazer ponte ou faltar fosse para o que fosse, apenas tinha que preencher o papel em que dizia que a falta /s já estava compensada. Havia também o chamado saco azul, que a partir de um determinado ano, que já não me recordo qual, passei a fazer parte, recebendo pela Páscoa uma verba muito superior ao valor que receberia se tivesse exigido horas extras. O meu relacionamento com as colegas de secção, que já há muitos anos, era uma só secção onde a Odete orientava a contabilidade geral, e eu a contabilidade industrial, era bom, por vezes até muito bom, desde que a Odete não faltasse, pois quando isso acontecia, era eu quem assumia as duas funções, e aí, começava a revolta e incompreensão do porquê de ser eu e não uma delas, Falei-lhes dizendo que não tinha culpa que me chamassem a mim quer fosse para orientar, quer para as reuniões com a administração, coisa que eu estava habituada, mas relacionadas com a “minha” contabilidade. Enfim, instalava-se um mau estar geral e quando eu saia era um corte de casaca que até chateava. Tudo isto me enervava, pois não queria que assim fosse, mas a administração também não queria proceder de outro modo, para que eu não pudesse exigir outras condições e regalias, e eu aguentava, mas o meu sistema nervoso dava logo sinal, em casa todos davam por isso, eu dizia o que se passava mas também ninguém compreendia. Houve um ano em que a Odete “resolveu” faltar seis meses seguidos precisamente na altura do fecho de contas, fui eu que assumi as duas contabilidades e consegui que tudo corresse bem e fechasse-mos a tempo e horas. Nesse ano recebi no tal envelope secreto 320.000$00, muito dinheiro para aquela época. o ambiente na secção foi de trombas, mas todas colaboraram fazendo o trabalho que lhes competia. Houve uma ocasião em que fui informada que iria assumir a minha função e também a da Rita, ficando responsável pela secção dela. Pensei, falei em casa e resolvi que aceitaria pois sabia o que conseguiria. No dia D a Maria Arminda (administradora) chamou-me e chamou-a a ela, antes de ir ela disse-me que não iria aceitar sair, e que portanto tudo ficaria na mesma, de qualquer modo iriamos ao gabinete da administradora. Ela entrou primeiro, enquanto eu esperava no corredor, passou o patrão (Sebastião Alves) que me convidou a entrar no gabinete dele, aí deu-me os parabéns, de finalmente ir ter um lugar de acordo com as minhas competências, etc. etc. deu-me toda a força possível, e eu a saber o que a Rita estaria a falar com a outra, de seguida fomos para o corredor e como a porta da Maria Arminda já estava aberta, entrámos, então a madame disse-me o que eu já sabia, enquanto ela falava eu olhei para o patrão, ele quase envergonhado, encolheu os ombros, como quem diz, não sei o que fazer, é que após o 25 de Abril de 1974, quando ele fugiu para o Brasil passou-lhe uma procuração, que ela possuiu até ao fim deles como administradores, portanto, quem mandava era ela, e por sua vez, a vontade da Rita imperava porque tinha muitos truques na manga, inclusive, já tinha conseguido casar com o ex-cunhado do patrão, que se divorciou depois de se ter descoberto o romance dele com a dita Rita. Mais uma derrota. Fora da secção ninguém compreendia porque é que eu nunca mais passava dali, todos sabiam das minhas capacidades. Na secção todas me invejavam, até pela forma como os engenheiros ou o TOC me cumprimentavam e falavam, afinal era comigo que tudo era tratado e falado, mas enfim, passei dias muito difíceis e complicados. Ninguém dos superiores queria assumir o que a administração não assumia e quem se lixava era eu. Uns anos depois e já com a hipótese da ida do pessoal de escritório, para junto da fábrica, no Carregado, falaram-me que iria ficar responsável pelas duas contabilidades, pois a Odete iria para directora financeira. Afinal eu já fazia todo o trabalho dela, com a introdução dos computadores os meus mapas de metros de comprimento e quase outros tantos de largura, passaram a meia dúzia de folhas impressas. O que tornou o meu tempo disponível para fazer tudo o que ela fazia antes, desde coisas simples, às que eram o segredo dos deuses. Foi decidido pela administração que a partida para o Carregado seria em Junho de 1996, no entanto, em 1995 foi a secção da Rita, como cobaia, para dar o exemplo. A mulher de um colega estava grávida e desmaiou no metro quando ia para o trabalho, ele foi informado da situação e que ela estava internada, por volta das 10 horas, pediu a tudo a todos para que o levassem a Vila Franca de Xira para apanhar o comboio para Lisboa para estar com a mulher, apenas à hora do almoço, um colega se disponibilizou por especial favor, para o levar ao comboio, só quase a o final da tarde se encontrou com a mulher. Toda esta situação fez-me imensa confusão devido à situação dos meus pais, ele com Parkinson e a minha mãe com problemas de coração, de tensões altíssimas, e ambos com problemas nos ossos. O que fazer? O Victor disse-me para fazer o que achasse melhor. E eu, o que fazer? Chegámos a 1996 e recebemos uma circular da administração confirmando a transferência a partir de Abril e até Junho, todos estaríamos no Carregado. Fui ao sindicato expus a situação e perguntei o que me aconselhavam, o advogado aconselhou-me a escrever uma carta à administração expondo a minha situação familiar informando que não iria, e depois, que aguardasse a resposta. Assim fiz. Decorria o mês de Fevereiro, em que já era necessário trabalhar ao sábado para o fecho de contas, quando eu ia sair para almoçar, sai-me ao caminho a maria Arminda que com um sorriso sarcástico me diz – recebemos uma carta sua, mas aquilo não é verdade, pois não? A Antonieta não nos vai deixar?! Ao que eu respondi que sim, ia deixá-los pelos motivos apresentados na carta. Com o mesmo sorriso sarcástico ela diz-me – a Antonieta fica, nós damos-lhe 500 contos e o papel para o fundo de desemprego, daqui a dois anos os seus pais já morreram, e nós damos-lhe de novo o seu trabalho lá. Foi a gota de água, nesse sábado já não voltei, durante a semana não fiquei depois do horário normal, resumindo, houve uma reunião com todos os engenheiros, a Odete, o director contabilístico, a administração e eu, para me pedirem que cumprisse os prazos para que pudesse ser feito o fecho de contas a tempo e horas. Por dentro ria de prazer, mas muito séria e selecta, disse que sim, não havia qualquer problema. E não houve, apenas e só, fiz o meu trabalho, a contabilidade industrial. No dia 10 de Abril, dia que o advogado do sindicato tinha dito como ultimo após a data da carta, despedi-me de todos os engenheiros, com quem sempre tive um relacionamento profissional cinco estrelas, despedi-me do director e da Odete. Foi muito bonito saber que iria fazer falta para algumas pessoas. Profissionalmente sempre fui considerada muito boa profissional, “pau para toda a obra”. Ultima derrota, ou talvez, primeira vitória. Ao fim de trinta e dois anos deixei de ser eu. Deixei de ser a brincalhona do principio, a amiga, a confidente, a explicadora, a companheira, a superiora que elas não aceitaram porque não foram informadas por quem de direito, que o era. No entanto, todas saíram no mesmo dia que eu. Na secção ficou apenas a Odete e a Amália que tinha entrado à pouco tempo. Trinta e dois anos, uma vida! Maria Antonieta Bastos Alentado 27-04-2017

sábado, 22 de abril de 2017

Com ou Sem Mãe 2

Foi mais ou menos nessa altura que nos começamos a dar com outros casais, todos sem filhos e alguns ainda solteiros. Juntávamo-nos aos sábados ao final do dia e por vezes só regressávamos a casa na madrugada do dia seguinte. Íamos para casa uns dos outros e aí ficávamos a contar anedotas, a jogar o monopólio, a jogar às cartas, bebendo e petiscando na maioria das vezes punhetas de bacalhau. A Carla acompanhava-nos na maioria das vezes, adormecendo na cama do casal aonde estávamos ou ao meu colo, ficando assim o serão inteiro. Mas era bom, eram pessoas com quem se podia conversar e com quem até se podia aprender alguma coisa. Depois uns foram pais, outros foram viver para as respectivas terras e tudo acabou. Deu-se o 25 de Abril de 1974 e de seguida e por consequência os senhorios resolveram querer vender as casas, o nosso senhorio pediu 600 contos, o senhorio dos meus pais pediu 200 contos, não hesitámos na compra, por concordância dos meus pais, pois em 1967 o meu pai tinha estado um mês a trabalhar em Paris e ganhou 30.000 escudos, uma fortuna para a altura, com esse dinheiro comprou em 1971, um terreno num local distante e praticamente deserto, em Casal de Cambra, e há muito falavam em construir lá uma casa. Começaram então a construção com ajuda de amigos do meu pai, e também com a ajuda do patrão que lhe cedeu alguns materiais gratuitamente. Nós voltámos para a rua de Gôa, pois era incomportável pagar a renda da casa e o empréstimo feito à caixa geral de depósito, única entidade bancária que na altura concedia empréstimos sobre imóveis. O ambiente entre todos era um pouco pesado, a minha mãe já não se sentia bem naquela casa, por sua vez, eu, também não me sentia bem, parecia que a casa não era de ninguém mas que todos lá tínhamos de viver. Em 1976 já não sei bem em que mês, cada um passou a viver na sua casa. Fizemos um quarto para a Carla e a partir daí começou a dormir no seu quartinho. O pior, eram as manhãs e depois as noites quando íamos levar e buscar a Carla à avó Chica, em que o choro era constante pois queria-nos todos juntos como antes. Ela sofria, eu sofria e a avó sofria. Uma tarde de sábado eu e o Victor falamos na hipótese de fazermos um primeiro andar na casa dos meus pais e assim resolveríamos a situação de todos. Mas para isso tínhamos que falar com eles, e consoante o que dissessem assim faríamos. No domingo a seguir fomos lá almoçar e falei sobre o assunto, o meu de imediato disse que sim, a minha mãe calou, ela sabia, depois acabou por concordar, na condição de que o meu tio João continuaria a dormir lá em cima, o meu pai tinha feito um quarto para ele no sótão. Claro que concordei, sempre gostei muito desse meu tio. A obra começou, também os amigos do Victor o ajudaram, e ele depois do trabalho na oficina vinha para aqui fazer tudo o que era possível fazer. Em pouco mais de seis meses a casa estava pronta, ampliamos com a feitura da garagem e sobrepondo-lhe a cozinha. Mudamo-nos no primeiro dia de Julho de 1978. Entretanto a casa da rua de Gôa foi vendida ao cunhado do senhor Silvestre, o merceeiro de há muitos anos, pagamos a dívida à CGD e o restante ajudou na construção desta casa. O Victor pediu algum dinheiro em nome da oficina, pois os juros eram mais baixos e deu para tudo. Esse valor foi pago pela oficina. A parte emocional de todos nós parecia ter voltado ao normal. No dia do quinto aniversário da Carla estiveram presentes os amigos do Victor que ajudaram e como de costume a família e alguns amigos nossos, para além das amiguinhas da Carla que lancharam juntas. Foi uma inauguração muito boa, um dia alegre e com boa disposição entre todos. Pusemos a Carla na pré-primária no colégio Grão Vasco, a ideia foi minha, queria que ela começasse a ter contacto com outras crianças para além das poucas aqui da rua, para além de querer dar um pouco mais de descanso à minha mãe. Ela detestou a ideia, ainda hoje me recrimina por o ter feito. Andou lá até à quarta classe, passando depois para a escola preparatória da quinta dos Castanheiros em Caneças. Sempre que o horário dava íamos levá-la antes de seguirmos para o trabalho, quando não ia de camioneta, tal como vinha. Os serões na oficina voltaram, por vezes até bastante tarde, eu esperava em vez de agarrar no carro e vir embora. Ele dizia-me para o fazer, mas eu sabia que o serão seria mais longo, pois entretanto os “amigos” iriam aparecer para os copos. E eu sabia bem como era a condução dele, e também o mau feitio com que ficava nessas ocasiões. Preferia sacrificar-me pela saúde dele e também pela boa harmonia. Porquê? Não sei! De novo a pena, a protecção, como se fosse mãe dele ou irmã mais velha. Talvez! Entretanto em 1980 comprámos um terreno na charneca da Caparica. Começamos por fazer uma garagem, a seguir uma casa de banho e uma pequena cozinha, aos poucos foi surgindo uma casa de primeiro andar. O dinheiro ia surgindo de trocas de carros comprados com empréstimo e depois vendidos a pronto, para além de outros empréstimos feitos em novo da oficina, com o trabalho do Victor tudo foi pago. Mas, quem pagava tudo o resto, alimentação, água, luz, gás, escola da Carla, roupa e calçado para todos, era eu com o meu ordenado. Os fins-de-semana sempre passados lá com homens a trabalhar e a beber, foram fazendo vir ao de cima os meus problemas nervosos, começados quando ainda vivia na casa da minha madrinha, em que um dia desmaiei, e ela me levou ao médico dela, que tinha o consultório no canto direito da igreja da Madalena, e já não recordo o que me fez mas chegou à conclusão que eu tinha o sistema nervoso muito frágil. As depressões começaram e o meu mau feitio surgiu, passando a não poder ver quase ninguém. A minha mãe foi uma das minhas vítimas, mal ela subia as escadas já eu estava de trombas. Também era um pouco culpada do meu mal estar, pois era raro odia em que mal eu entrava em casa ela não me fizesse queixas da neta, sobre coisas que só ela no momento em que aconteciam o podia resolver. Era difícil. Muito difícil. Depois da casa pronta, passou a ser estalagem para todos, aos fins-de-semana toda a gente, família e sem ser, apareciam lá para comer e beber à borla, excepto a minha prima Liete e o marido que sempre pagaram o que comeram. Com esses passei férias felizes, dávamo-nos muito bem, passeámos por Portugal de norte a sul e sempre correu tudo bem. Saudades deles, meu Deus. Voltando aos outros, havia um casal que se dava ao luxo de telefonar para lá, pois eu mandei lá pôr um telefone para poder telefonar à minha mãe todos os dias, como sempre fiz até ao último dia do meu pai com vida, que partiu sete anos depois dela. Então telefonavam e diziam “ amanhã, comprem sardinhas a contar connosco, que nós vamos à praia e depois vamos almoçar aí”. Outro levava a família quase toda e pagava com um doce ou um bolo para a sobremesa. E no fim íamos todos ao café da dona Beatriz, e quem pagava os cafés e os extras era o Victor. Enfim. Entretanto a Carla casara em 1991, a partir daí também os amigos dela e dele e respectivos namorados passaram a ir para lá, até aí tudo bem, o pior foi quando descobrimos que o meu genro, tinha emprestado as chaves que a Carla tinha, a um amigo que fez cópias e durante a semana a casa passou a ser uma casa de encontros amorosos. Foi a minha mãe que nos alertou, dizendo que aqui já se falava que a minha casa era uma casa de putas, não me disse quem lhe falara no assunto, mas só podia ter sido a mãe de uma miúda aqui da rua que também ia para lá. Fui eu quem falou com eles, filha e genro, desmentiram, e tudo ficou assim. Passei a ter nojo da casa, não sabia quem lá tinha andado e onde tinha mexido. Cheguei a um ponto que já não aguentei mais. As discussões eram constantes, no entanto para todos, nós eramos um casal feliz. Ele também se cansou de tudo isto e um dia no café disse que se encontrasse quem quisesse comprar a casa a vendia de imediato, mal o disse e já havia um comprador, o cunhado do vizinho do lado, e assim no final de 1999 a casa foi considerada vendida embora só se fizesse a escritura já em 2000. Maria Antonieta Bastos Alentado 22-04-2017

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Eu Com e Sem a Minha Mãe

EU COM E SEM A MINHA MÃE Estava casada sim, e estava libertada?! Não! Falei que queria tirar o curso de contabilista e iria fazê-lo à noite, para não prejudicar o emprego, disse-me logo que não acava necessário, pois eu até ganhava bem, e que desistisse da ideia. Mais uma vez fracassei e não lutei. Já o tinha feito anteriormente pelo mesmo motivo, com a minha mãe. Nas vésperas de casarmos ele deu-me 8000$00 para guardar, era o dinheiro que tinha, assim fiz. O meu ordenado também passou a ser orientado por mim, pagando metade da renda da casa, metade da água, metade da luz e do gás, metade da taxa da tv, metade do telefone e também metade da alimentação, portanto metade de tudo, imposição da minha mãe e com a qual concordei, ela não tinha obrigação de me continuar a sustentar se já não recebia o meu ordenado. Ele estava no Entroncamento, a tirar a especialidade, vinha ao fim-de-semana a casa e levava comer feito para a semana toda, a meio da semana escrevíamos uma carta um ao outro, a confiança que eu tinha na minha mãe era tanta, que criamos códigos para que mesmo que ela abrisse as cartas não percebesse a conversa. Aos fins-de-semana sempre que tinha trabalho, fazia-o e assim ia tendo dinheiro para os extras na tropa. Veio depois para Campolide onde ficou o restante tempo perfazendo trinta e seis meses de tropa. Como era casado vinha dormir a casa todos os dias, também como casado tinha direito a uma determinada verba, mas como dava trabalho ia tratar disso, não tratou e nada recebeu. Também aí levava todos os dias o almoço de casa, soube há bem pouco tempo que normalmente o dava a outros e ele ia comer num restaurante perto do quartel. Ele trabalhava ao fim-de-semana e eu continuava a arcar com todas as despesas. Por graça ia juntando os míseros escudos que ele como soldado raso ia ganhando, até já ter uma verba mais ou menos jeitosa que serviu para ele tirar a carta de condução, e aí, os 8000$00 que me tinha dado a guardar, foi para a entrada do primeiro carro que tivemos, um Ford 12 M , que tinha sido do senhor António, o dono do pequeno lugar em Benfica onde o meu pai parava, ficamos a dever 7000$00, começou a nossa guerra e as nossas dívidas por causa dos carros. No quartel as tardes eram passadas no jogo e na bebida, pelo que muitos dias chegou bêbado a casa. Numa brincadeira no quartel partiu a rotula direita, esteve um mês engessado e supostamente internado no hospital militar na rua da Artilharia 1, mas como um dos porteiros era da Damaia e já se conheciam, a troco de vinho, todos os dias saia e ia dormir a casa. No outro dia lá ia de novo de táxi, para estar no quartel à hora da revista. Houve uma noite em que nunca mais chegava a casa, eu já pensava que ele tinha tido um acidente com o carro, até que apareceu com o tal de Marinho, o porteiro do hospital, não sei qual dos dois estava mais bêbado, riam e falavam alto, e a hora já era bem tardia, a minha mãe claro está, que já estava há muito tempo deitada, ele começou a desconversar, como sempre fazia quando não estava sóbrio, começou a dizer que a minha mãe tinha vergonha dele e abriu a janela dizendo que ia atirar tudo pela janela, assustada fui pedir à minha mãe que se levantasse e fingisse vir da casa de banho e os fosse cumprimentar, ela coitada, assim fez e ele acalmou. Ao fim de um tempo o outro foi-se embora e consegui convence-lo a ir-se deitar. Hoje penso porque consenti que isto acontecesse, do que tinha medo? Mas tinha, tinha medo que ele se tornasse agressivo. No outro dia já tudo tinha passado, até uma próxima. Foi assim todo o tempo em que esteve na tropa. Entretanto ele já tinha uma outra oficina e um sócio, que era trabalhador no hospital de Santa Maria, continuava sem me dar dinheiro, pois tinha começado tudo de novo e a oficina não tinha dinheiro. Entretanto engravidei, de comum acordo, já íamos fazer quatro anos de casados e ele já tinha saído da tropa. Quando fui saber o resultado da análise que confirmou a gravidez, foia a minha mãe comigo, ao dizer-lhe que ia ser avó, respondeu-me com um ar sério – não sei se fico alegre ou triste. Nada mais disse. Fui a todas as consultas quase sempre com a minha mãe, ele tinha que trabalhar, não tinha tempo, até aquele sábado de Agosto em que durante a noite me levantei várias vezes com dores, mas como as águas não tinham rebentado, pensava não ser ainda, pelas contas da médica ainda faltava uma semana. Ele ia trabalhar mas como as dores apertavam pedi-lhe para me levar à ginecologista que em assistia, na caixa, era assim que se dizia na altura, que ao me ver de imediato disse para irmos depressa pois já tinha a dilatação quase toda feita. Fomos, eu, ele e a minha mãe. Pouco tempo depois de chegarmos à associação no largo do Caldas, a Carla nasceu, mas já aí me fez sofrer, pois tiveram que voltar a meter a cabeça para dentro, que ela vinha torcida. Estive cinco dias internada, e todos os dias tive a visita da minha mãe que me levava o almoço, e dele que me levava o jantar e ficava a dormir. Foi um ano em que o mês de Agosto foi abrasador e não havia ar condicionado, mas passou-se. Foi-me dito que deveria sair na quinta-feira, a minha mãe como de costume lá estava à hora de almoço, e foi-me dada alta, telefonei-lhe para nos ir buscar, mas não foi, não pode, tinha muito trabalho. Eu fui para uma esquina com a Carla ao colo, a minha mãe foi para outra com o saco da menina e o outro saco com as minhas coisas, para ver qual de nós arranjava primeiro um táxi que nos levasse à Damaia. Já não me recordo bem, mas penso que fui quem o arranjou primeiro, mas isso foi secundário, felizmente chegámos a casa. A minha mãe deu-me todo o apoio logístico necessário, ajudando-me nos biberons, nas fraldas, depois nas papas, nas sopas, e por aí fora, pois após dois meses acabou a baixa de parto e fui trabalhar. Só num ponto nunca me ajudou e avisou logo no primeiro dia, nunca deu banho à neta. Quando eu chegava a casa até me dava prazer fazê-lo. Foi nessa altura que compramos uma máquina de lavar roupa, pois ainda não se usavam as fraldas descartáveis, pagamos a meias, eu e a minha mãe, mas com a condição de que quando saíssemos dali a máquina ficava. Tal já tinha acontecido quando no princípio de casados compramos o esquentador. E assim foi. Começamos nessa altura à procura de casa, ainda pensamos em comprar, mas ficávamos com uma renda incomportável, pelo que decidimos mesmo alugar. Encontramos um rés-do-chão optimo na Damaia de Cima, a renda era 3200$00, era eu quem a pagava, para além de continuar as despesas que a minha mãe fizesse com a alimentação da neta, ou quando nós lá jantávamos. Mais uma etapa. Fui mãe. Maria Antonieta Bastos Alentado 19-04-2017

Eu e a Minha Mãe 3

A vida profissional ia bem, muito embora não tivesse continuado a estudar tal como eu queria, mas mais uma vez fui impedida pela minha mãe, pois teria que o fazer à noite e isso não era compatível com a minha qualidade de “menina”. Mas pronto, tive a sorte de ter ficado logo responsável pela contabilidade industrial da firma em que trabalhei durante trinta e dois anos. Já lá chegaremos. O meu tempo voltou a ser só à janela, onde tinha vários candidatos, uns apenas passavam e olhavam, outros ficavam também à janela e iam olhando de vez em quando. Também no emprego tinha dois admiradores, mas para mim nenhum era igual ao que ainda fazia bater o meu coração. Aproximava-se o dia do meu 19º aniversário e pedi à minha mãe se podia fazer uma festa com as colegas de trabalho e os primos e primas, ela acedeu. Eu tinha um gira-discos, o Victor tinha um leitor de cassetes, e o Zé Manuel, meu colega levou também os discos que tinha, assim reuni à volta de 15 pessoas. A minha mãe esteve sempre presente, muito embora as minhas tias também lá estivessem. Dançou-se e ao som de Roberto Carlos, tanto o Zé como o Victor, pediram-me namoro. Disse não a ambos. O dia acabou e tudo ficou na mesma. Não sei exactamente em que mês o meu primo Manuel Artur foi lá a casa e levou uma agenda onde o Victor escrevia quadras destinadas a mim, em que demonstrava todo o seu sofrimento por não conseguir que eu lhe aceitasse namoro. Chorei ao ler tudo aquilo, era deveras sentido, livra. Mas não, eu não gostava dele para namorar, além disso, também me lembrava de o meu pai me ter pedido que quando voltasse a namorar fosse com um sujeito que já tivesse cumprido a tropa, e ele nem sequer ainda lá estava. Também me lembrava, mas aí já nada podia fazer, que um dia a minha madrinha ao saber que o Victor gostava de mim, pois no dia do casamento do irmão Jorge embebedou-se por causa de eu não querer dançar com ele, me disse – não o queiras, é feio, quer antes o Ângelo que é mais bonito. Pois é, mas esse já podia ser meu. Por outro lado a minha mãe também não queria que eu namorasse com ele por ele ter o feitio do pai, era agressivo e mal educado, tudo isto ela tinha presenciado naqueles meses em moramos todos juntos. Enfim, estava num beco sem saída, tinha pena dele, também por saber que já tinha saído de casa e vivia na cave da oficina onde trabalhava com o irmão Jorge. Não tinha qualquer apoio da mãe, nem de ninguém, precisava de carinho de alguém, a minha cabeça não parava, mas sabia que não o amava. Em Novembro desse ano, ele e os amigos fizeram um baile na garagem da casa dos pais, a minha tia pediu à minha mãe para me deixar lá ir, ela acedeu mas foi comigo. O Victor voltou ao assunto, eu não respondi. A minha vida em casa era uma monotonia, pouco saia, já nem com a Liete, pois ela tinha namorado e eu não. falei com ela e pedi-lhe opinião sobre o que havia de fazer, ela disse que achava que ele era boa pessoa, que tinha mudado e era apaixonado por mim, a opinião dela era que aceitasse e depois logo veria se dava ou não. Foi o que fiz, aceitei, mas sabia que não o amava. Era a única certeza que tinha. Dois meses depois ele quis tornar o namoro oficial e falou com o meu pai, que de imediato disse não. a minha mãe que já se apercebido do namoro, já me tinha proibido de o cumprimentar com um beijo (na cara), que era assim que cumprimentava todos os primos, aí eu reagi pela primeira vez e não fiz o que me pediu. Uns dias depois o Victor voltou a falar com o meu pai que voltou a dizer que queria que a filha fosse feliz, e não queria que começasse já a namorar, mas ele subiu as escadas com o tio, meu pai, e ficou quase todo o serão lá em casa. A partir daí foi tudo oficial. Era presença diária ao serão, nessa altura já tínhamos ido buscar à Vidigueira, a minha avó Maria e o tio João, então, quando se aproximava a hora dele chegar a minha mãe dizia ao meu tio para ir acender a televisão e levar a minha avó para a sala, portanto o namoro foi sempre bem acompanhado. Não podíamos sair sozinhos para lado nenhum, tal como já tinha sido anteriormente. Tudo era controlado. Se eu era feliz? Não, não era, nem os beijos tinham o mesmo sabor, nada me fazia borbulhas na barriga, nada era como já tinha sido. Amava-o? Não sabia, mas sabia que não era amor o que sentia. O tempo passava e a Liete ia casar, ora bem, era apenas com ela e o Jorge que a minha mãe me deixava sair, porque também ia a irmã Rosa, qua ainda não namorava. Depois de casada se calhar já não queria andar connosco, ele ia entrar para a tropa, o irmão Jorge já lhe tinha dito que quando fosse para o quartel, precisava do espaço onde ele tinha um divã e um roupeiro, tudo isto martelava a minha cabeça, o que fazer? Ele queria casar, e eu o que queria?! Não sabia, deixei de saber o que fazer, só sabi que queria sair da prisão em que vivia desde que nascera. Até o meu ordenado era entregue por inteiro à minha mãe, ela depois dava-me uns escuditos para uns bolitos ou gelados, nada mais que isso. Fizera vinte e um anos, era considerada maior, mas tudo continuava na mesma, sem poder ter decisão própria, ou fazer algo sem a mãe atrás. Resolvi que iria aceitar casar, mas, os meus pais não me autorizavam a fazê-lo. Pois, mas já era de maior idade, o destino, e eu acredito no destino, fez com que dissesse que mesmo sem eles quererem iriamos casar e viver num quarto alugado. Foi aí que a minha mãe se apercebeu que já não mandava em mim, então, decidiu que casaríamos e ficávamos a viver lá em casa. Assim foi, e no final de 1969 casei. Por amor? Não! por pena e por necessidade de me libertar da prisão que era a minha mãe. Maria Antonieta Bastos Alentado 19-04-2017